DVD traz de volta o que Deus "criou"

Roger Vadim rodou E Deus Criou a Mulher em 1956. Muita coisa aconteceu por causa disso. Brigitte Bardot, sua mulher na época e já com 16 filmes como coadjuvante, tornou-se uma estrela internacional aos 22 anos. Vadim, estreante na direção, ficou célebre da noite para o dia. O filme provocou um escândalo pelo que aparentava conter e poucos enxergaram o que de fato aparecia na tela. E Saint-Tropez, cenário da história, foi ?descoberta? ? de uma aldeia de pescadores, de artistas e de intelectuais, com praias e botequins quase selvagens, tornou-se o reduto dos milionários: depois, meca do turismo hippie-de-butique. Bardot, Vadim e o filme ficaram famosos e quem pagou foi a linda Saint-Tropez.Quando assisti a E Deus Criou a Mulher pela primeira vez, em 1966, numa sessão especial de meia-noite no cinema Paissandu, no Rio, o filme tinha sido feito há 10 anos e não me disse muito. Era difícil para um jovem na segunda metade dos anos 60 entender o que ele representara no lançamento ? porque a personagem de Bardot, antes revolucionária, se disseminara nas figuras femininas da Nouvelle Vague e já era a norma até entre as garotas em certos círculos do Rio. A cópia exibida naquela sessão do Paissandu, às vésperas de ser incinerada, também não ajudava: as cores tinham sumido e o filme ficara rosa. É provável, no entanto, que, em 1966, nem uma cópia tinindo devolvesse a E Deus Criou a Mulher seu frescor original.Mas, como dizia Vinicius de Moraes, nada como o tempo para passar. E, tantos anos depois, isso acaba de acontecer. A edição em DVD de E Deus Criou a Mulher, gloriosamente restaurada pelo próprio Vadim e lançada pela Criterion, ressuscita o filme em todos os níveis. A fotografia de Armand Thirard é (copyright Paissandu) genial: Saint-Tropez explode em cores na tela larga, com o mar, as flores e as fachadas das casinhas sugerindo uma Oz mediterrânea, onde a personagem de Bardot parece, mais do que lógica, inevitável.O som é o melhor que o filme já teve, com os mambos e baladas de Paul Misraki influindo decisivamente na ação e fazendo perguntar se a trilha sonora existe em CD (existe). E, agora, sob a perspectiva de uma ou duas revoluções sexuais desde que o filme foi feito, pode-se perceber como E Deus Criou a Mulher estava tão à frente de seu tempo. Era talvez o filme mais ?amoral? já visto no cinema ? e um dos menos eróticos. Brigittte, no papel de Juliette, aparece nua logo na primeira seqüência, espichada sobre uma espreguiçadeira na grama, com seu corpo tomando todo o CinemaScope. A cena é ao ar livre, sob um sol de rachar, e Curd Jurgens chega para falar com ela. Jurgens (um ator alemão, sempre naquele tipo de papel) está de olho em Juliette, mas, para esta, sua própria nudez não quer dizer nada. Em todas as outras seqüências em que Juliette se despe ou em que sabemos que está despida, sua nudez nunca é um instrumento explícito de titilação. E Vadim filma de acordo, abusando da iluminação: não há uma só seqüência ?sugestiva?, tipo boudoir à meia-luz ou camisola decotada (qualquer filme colorido de vampiro, da mesma época, é mais ?erótico?).Então, por que o filme provocou tal escândalo? Talvez por isso mesmo. Juliette foi a primeira garota ?moderna? do cinema. Ela é uma órfã de 18 anos, que mora com uma família de Saint Tropez e não pensa duas vezes quando está a fim de tomar sol nua ou de dar umas voltinhas com Christian Marquand, um dos rapazes da cidade. A família a vê como uma vagabunda e quer puni-la com um internato. Para evitar isso, Juliette se casa com Jean-Louis Trintignant, irmão mais novo de Marquand. Mas Trintignant é um mosca-morta, que se submete a todo tipo de humilhação, inclusive a uma recaída de Juliette com Marquand. Então Juliette provoca Trintignant obrigando-o a lutar fisicamente por ela e até a lhe dar uns tapas. Faz dele um homem, salva seu casamento e, pelo visto, sossega. Nelson Rodrigues tinha razão.O moderno em Juliette é que ela não era uma vamp, uma sedutora artificial. Estava mais para a ?ingênua libertina? de Colette do que para as ingênuas-até-certo-ponto que Marilyn Monroe interpretava. Dela sairiam, aperfeiçoadas, a Jean Seberg de Acossado, de Godard (1959), e a Jeanne Moreau de Jules et Jim, de Truffaut (1961), as duas personagens que o crítico José Lino Grüneweld então entronizava como protótipos da mulher do futuro. Mas nem Seberg e muito menos Marilyn era tão espetacular quanto Brigitte, o que tornava sua ?interpretação? de Juliette muito mais difícil.Vadim, em suas memórias D?une Etoile à l?Autre, conta que Juliette, no fundo, era Brigitte ? mas, na filmagem ele precisou convencer Brigitte a ?esquecer? que era atriz e a se comportar como na vida real, não como seus diretores anteriores e mandavam fazer (proibiu-a, por exemplo, de fazer boquinhas sensuais). Brigitte era tão Juliette que, durante a própria filmagem, a vida imitou o filme: ela se apaixonou por Trintignant e largou Vadim, com quem estava desde os 16 anos. E este, em nome do filme, não estrilou, deixou o caso rolar. O casamento acabou, mas eles fariam outros quatro filmes juntos, nenhum tão bom.Vadim, que morreu no ano passado, aos 72 anos, era uma grande figura. Relatos da boemia de Saint-Germain des Prés já o mostram aos 20 anos, em 1947, levando o existencialismo para as pistas de dança com Juliette Greco. Os americanos tinham feito aquelas experiências nucleares no atol de Bikini, no Pacífico, e isso gerou uma angústia ?existencial? nos jovens franceses, a ser resolvida com uma atitude de ?dane-se, o mundo pode acabar amanhã?. Os redutos dessa atitude foram, em Paris, os recém-criadas discotecas de Saint Germain (a principal, a Tabou, na qual o sucesso era La Java des Bombes Atomiques) e, em Saint-Tropez, a praia de Tahiti, onde as moças usaram os primeiros biquinis. Aliás, foi Vadim quem, na época, inventou a palavra ?discoteca? para designar uma boate com música gravada.Mas, para o bem ou para o mal, sua maior influência foi sobre Saint-Tropez. Evidentemente, ela já existia há séculos e era celebrada desde 1900 pelos pintores que moravam lá (a turma de Paul Signac) e uns poucos escritores. Mas o grosso dos visitantes da Côte d?Azur concentrava-se em Nice ou Antibes e chegava, no máximo, a Cannes ? ninguém dava bola para Saint Tropez. Foi a turma de Vadim que, por volta de 1950, desbravou suas praias, abriu a primeira discoteca ??, que está lá até hoje, na Rua de Four), elegeu seus primitivos botequins (o Gorille, o Sénéquier, o Café de La Ponche, que também ainda estão lá) e consagrou um estilo de vida que incluía praia, bar, literatura, poesia, cinema e muito sexo (Françoise Sagan, então ?de menor?, era a caçula do barulho). Normal que, ao fazer seu primeiro filme, ele se passasse em Saint-Tropez.A casa de Brigitte e Trintignant em E Deus Criou a Mulher é um prédio de três andares na prainha de pedras do La Ponche, a mesma pela qual Brigitte passeava nua nos intervalos de filmagem e acenava alegre para os barcos de pescadores. Esse tipo de liberdade, incomum até para os padrões da Riviera de 1956, paira sobre o filme, e o massacre que ele sofreu da crítica mostra que não precisou ser ?entendido? para fazer sucesso: os críticos americanos e ingleses viram nele erotismo demais; os franceses, erotismo de menos. Quase ninguém parou para pensar que não era o erotismo que estava em causa ? e, nesse ponto, o meio russo, meio francês Vadim, habituado a uma outra moral, mostrou que estava muito à frente.E a batalha que o filme enfrentou com os censores franceses hoje parece hilariante. Um deles queria cortar a cena, logo no começo, em que Brigitte (vestida) empurra uma bicicleta pela estrada ? ficou incomodado com seu jeito de andar. Outro censor exigiu o corte de uma seqüência, logo depois do casamento, em que Brigitte ( ?completamente nua?) entra na sala onde os convidados estão almoçando. Vadim não entendeu esse corte e argumentou que, na tal seqüência, Brigitte estava vestida com um roupão que lhe chegava aos pés. O censor mandou projetar a cena e ? surpresa ? Brigitte, de fato, estava vestida. O censor enxergara nudez até onde não havia. Vadim, ali, descobriu que tinha feito o filme certo.And God Created Woman (Et Dieu Créa La Femme) - De de Roger Vadim. DVD da Criterion. Leg. em inglês. Importado. Disponível na Sight & Sound (tel. 0 21-294-7399). R$ 95,00

Agencia Estado,

23 de setembro de 2000 | 12h29

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