DVD "New Orleans" tem participação de Billie

Ela foi a maior das cantoras de jazz e, para muitos críticos, a maior das cantoras de música popular. Billie Holiday teria sido a Maria Callas do blues. Billie acreditava que, para ser feliz, era preciso só um teto e um amor. Sua voz era puro encantamento. E soava com freqüência como um lamento, porque uma aterradora sensação de angústia a cercava. A maior das ladies do blues chega agora ao DVD por meio de seu único filme. A Continental está colocando nas locadoras e lojas especializadas o disco digital com New Orleans, o filme que Arthur Lubin realizou em 1947, tentando fazer a síntese da história do jazz.A história é só um fiapo para unir as apresentações com grandes nomes dessa forma musical tão importante: estão lá, além de Billie, Louis Armstrong, Woody Herman e sua banda. Quase todos os números são truncados, mas Billie dá uma canja. Canta Do You Know What It Means to Miss New Orleans, com Armstrong e é sublime. Só que ela não gostava do papel. Faz uma doméstica. Billie sabia que era uma lady, mas na Hollywood racista dos anos 40 uma grande cantora negra e drogada não podia aspirar mais. Nem era isso que a incomodava tanto, mas o cantar só aos pedacinhos.É um filme de Arthur Lubin e da obra extensa desse ex-ator são poucos os títulos que se salvam. Podem-se citar Sexta-Feira 13 - 40 anos antes da série sobre Michael Myers -, com a participação de dois mitos do terror, Boris Karloff e Bela Lugosi, e O Fantasma da Ópera, com Claude Rains no papel do personagem criado por Gaston Theroux. New Orleans não é convincente como ficcionalização da história do jazz, mas a classe dos artistas nele envolvidos o torna um programa imperdível. Você precisa ver New Orleans, quanto mais não seja pela oportunidade que oferece de um registro ao vivo da grande arte de Billie Holiday.Joseph Losey, que a conheceu quando tinha apenas 16 anos e cantava numa espelunca do Harlem, em companhia de John Hammond não tinha Billie na cabeça quando fez a obra-prima Eva, em 1962. Mas, quando foi discutir o papel com Jeanne Moreau, descobriu que a grande atriz estava na sua fase Billie Holiday. Ouvia-a sem cessar. Por entender que a partitura de Eva tinha de ser o diálogo dos diferentes níveis de angústia entre um homem e uma mulher, Losey chegou à conclusão de que Billie era a escolha natural para a trilha. Pena que os produtores não tenham respeitado sua decisão. Por uma questão de direitos, reduziram a participação de Billie na trilha de Eva - que o próprio Losey considerava, na sua versão completa, um dos dez maiores filmes de todos os tempos -, a duas ou três músicas, apenas. Mesmo assim, é a maior homenagem do cinema a Billie. Quando Hollywood resolveu filmar sua biografia, colocou a embonecada Diana Ross no papel. Diana não era ruim, mas cantava só com técnica. Billie colocava a alma na voz. Isso se percebe até em New Orleans.New Orleans (New Orleans) - EUA, 1947. DVD da Continental. Bônus: biografias de Armstrong e Billie e dois curtas sobre jazz. Nas lojas, R$ 35

Agencia Estado,

28 de agosto de 2001 | 23h03

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