DVD é porta de entrada dos filmes brasileiros lá fora

Se a fila de filmes nacionais prontos para serem lançados nas salas do Brasil beira os 80 títulos e é cada vez mais difícil assegurar uma segunda semana de exibição nos cinemas que vêm sendo dominados por Códigos Da Vinci e X-Men, a fila na alfândega para projetar títulos nacionais no mercado internacional e, mais ainda, no mercado norte-americano é imensa. ?Há hoje ?a onda do cinema oriental?. Tudo que vem de lá chama atenção automática dos distribuidores. Os outros países têm de trabalhar muito mais para que seus filmes sejam notados?, comentou a distribuidora Rebeca Conget, vice-presidente da New Yorker Filmes, durante um dos debates que permearam o Market Place, ciclo de discussões sobre tendências e mercado, que levantou temas nesta semana como co-produção do cinema brasileiro com o exterior e venda de produtos nacionais para a TV Americana. ?Exibir suas produções no cinema é sempre o principal objetivo de um diretor. Ninguém faz filmes para passar em telas de celular ou IPods. Mas, diante das dificuldades do mercado, o melhor talvez seja explorar o potencial do DVD. Hoje, há até empresas, como a NetFlix, um atual fenômeno dos Estados Unidos, que entregam em casa e dão a opção ao sócio de assistir até 50 filmes por mês por um preço infinitamente mais barato que o do ingresso de cinema?, comentou Rebeca, que cuida da distribuição de filmes internacionais, incluindo brasileiros, no mercado norte-americano. ?Nova York e Chicago têm grande demanda. Mas até cidades como Miami e Los Angeles, que aparentemente teriam procura, estão rendidos aos blockbusters. Lançar filmes brasileiros diretamente em DVD é uma boa saída para driblar a concorrência?, acrescenta. O brasileiro Rodrigo Brandão, diretor de publicidade da Kino International, empresa que também comercializa os chamados filmes de arte nos EUA, concorda, mas pontua: ?Conseguir estrear filmes nos cinemas sempre dá prestígio. A melhor estratégia é lançar ao menos em uma sala, conseguir boas críticas e, então, lançar estes filmes em DVD. Mas realmente nem sempre isto é possível.?A discussão pode parecer distante do mercado nacional e mais ainda do grande público, mas passa pelo histórico problema da sustentabilidade do cinema brasileiro e da própria diversidade de produções. ?Explorar o mercado estrangeiro pode ajudar a pagar a produção de um filme. Não é por acaso que a indústria norte-americana investe tão pesado nos mercados da América Latina, Ásia, África. O Brasil pode e tem de explorar melhor este potencial. Afinal, é cada vez mais difícil se manter em cartaz se o filme não faz uma ótima campanha no primeiro fim de semana. Lançar este filme no exterior e em DVD é uma boa opção para recuperar o potencial perdido no cinema?, comentou Brandão. ´Brasília 18%´, estreou e saiu de cartaz em menos de um mêsO ?fenômeno? do primeiro fim de semana não atinge somente diretores estreantes. O ?imortal? Nelson Pereira dos Santos, homenageado desta edição do Festival de Miami, acaba de viver a experiência. Seu mais recente filme, Brasília 18%, estreou e saiu de cartaz em menos de um mês. ?Fico triste. O filme não colou. Foi lançado com 40 cópias, mas seria preciso uma grande campanha publicitária para que, em três dias de exibição, o filme fizesse a renda que tem sido exigida?, declarou o diretor em conversa com o Estado. ?Mas este não é um problema exatamente do Brasília 18%. É um problema histórico. É cruel mas é a realidade. Sempre foi assim e hoje é pior. Por que é um mercado tão pequeno em um país tão gigante? Por que o filme brasileiro não tem espaço na televisão aberta??, questionou ele, que também reconhece o potencial do mercado de homevideo. ?O único caminho que o cinema brasileiro tem mais liberdade é no DVD, que está crescendo, mas as vendas nunca vão pagar o custo de produção. E continuamos tendo de ser financiados pelo dinheiro público. Um mercado que poderia ser gigantesco não existe. Esta é a grande contradição do cinema nacional ?, disse ele, quando questionado sobre o motivo da má campanha de Brasília 18% no cinema. ?É muito difícil saber se o público recebeu bem o filme ou não. No mínimo, é polêmico. Já fiz outros filmes que foram mal compreendidos quando lançados e que hoje são tidos como referência?, acrescentou ele, que foi eleito neste ano para ocupar a cadeira que tem Castro Alves como patrono na Academia Brasileira de Letras.Nelson Pereira, poderia, então, lançar Brasília 18% no Mercado internacional e, principalmente, em DVD? ?Sim. E não. Sim porque o mercado de DVD é um do que mais dá retorno hoje em dia. Cada vez mais o Mercado de homevideo é levado em consideração. E não porque há que se considerar o potencial de um filme para ser lançado no exterior?, comenta Rebeca.Um cartaz com Tony Ramos não funciona nos EUA?Acabei de receber um filme que jamais lançaria nos Estados Unidos do jeito que ele foi apresentado. O cartaz era a cara do Tony Ramos. Adoro o trabalho dele, mas aqui ninguém sabe quem é. Se for para trabalhar um filme assim, temos de primeiro incluí-lo no gênero da comédia, depois, da ?troca de corpo?e, então , mostrar para o espectador americano porque ele deve assisti-lo?, explica Brandão, referindo-se a Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho que tem feito uma das melhores campanhas do ano nos cinemas brasileiros, batendo os três milhões de espectadores. ?Há mercado para o filme brasileiro nos Estados Unidos, mas, mais que no próprio Brasil, é preciso saber explorar as janelas que o mercado oferece. O DVD certamente é uma das principais saídas. Para cada Cidade de Deus que aparece, há vários outros que podem, aos poucos, ganhar espaço?, comenta Brandão. A produtora Zita Carvalhosa, que participava do encontro como produtora, concorda. ?Eu prefiro ver meu filme vendido e assistido em DVD a vê-lo ser engavetado. É um começo.?Rebeca é otimista: ?Se o trabalho for constante e a produção se mantiver, quem sabe a ?Onda Brasileira não chega e tudo pode mudar.?A repórter viajou a convite da organização do festival

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