DVD de "Ben-Hur" sai repleto de extras

Charlton quem? Heston. Hoje em dia ele não passa de coadjuvante, interpretando pequenos papéis em filmes nem sempre de boa qualidade. Mas houve um tempo, nos anos 50 e 60, em que reinava em Hollywood. E, se o filme era um épico os produtores não hesitavam em entregar-lhe o papel do protagonista. Foi Moisés em Os Dez Mandamentos, Ben-Hur, El Cid, interpretou a primeira versão de O Planeta dos Macacos (e agora faz uma ponta no remake de Tim Burton). Um dos épicos mais famosos de Heston está saindo em DVD.Não é só por causa da longa duração que a Warner resolver lançar Ben-Hur em disco digital duplo. Há muitos extras: making of, depoimento do ator, testes de tela, galeria de fotos, destaques das carreiras do diretor e dos atores. Um lançamento e tanto. A casualidade é que, justamente hoje, se completam 20 anos da morte do diretor William Wyler. Hoje, também se fala pouco nele, mas Wyler foi um dos diretores mais prestigiados da história de Hollywood. No fim dos anos 40, ele desencadeou uma polêmica na França, onde surgiu o conceito do cinema de autor. O crítico e depois cineasta Roger Leenhardt lançou a palavra de ordem: "Viva Wyler, abaixo Ford", que incendiou a crítica francesa da época.O cinema de Wyler seria mais importante que o de John Ford, o Homero de Hollywood. Poucos estariam disposto a defender isso, atualmente, mas Leenhardt não pregava sozinho no deserto. O crítico André Bazin era outro que colocava Wyler num panteão. Para ele, menos do que pelos roteiros de fundo psicológico e social - em filmes como Jezebel, A Carta, Pérfida, Os Melhores Anos de Nossas Vidas -, o que fazia a autoria do diretor era a forma, a sua maneira de usar a profundidade de campo, que dá ao espectador a possibilidade de ele próprio fazer o corte nos filmes desse diretor, estudando os personagens de acordo com sua vontade.Recorde - Ben-Hur pode não ser o melhor exemplo, mas essas características estão presentes no filme que deu a Wyler seu terceiro Oscar de direção. Ele já havia recebido o prêmio da academia por Rosa da Esperança, em 1943, e Os Melhores Anos de Nossas Vidas, em 1946. Com Ben-Hur, em 1959, estabeleceu um recorde que só foi igualado por Titanic, quase 40 anos mais tarde: o filme recebeu 11 Oscars. É uma adaptação do romance do general Lew Wallace, que já havia sido filmado por Fred Nibblo, com Ramon Novarro, nos anos 20.Uma história dos tempos de Cristo. Judá Ben-Hur é judeu e amigo do tribuno Messala. Para provar o domínio de Roma sobre a Judéia, Messala sacrifica a amizade. Vale-se de um pequeno incidente para enviar Ben-Hur para as galés, sua mãe e a irmã para as masmorras, onde elas contraem a lepra. No início da sua via-crúcis, Ben-Hur cruza com o homem chamado Jesus. Renasce do inferno, vira herói em Roma e volta para vingar-se - na memorável cena da corrida de bigas, que é o momento mais espetacular do filme. A satisfação da vingança não devolve a paz a Ben-Hur e ele só a recupera no reencontro, agora interior, com Cristo.Por mais açucarado que seja o desfecho do conflito armado por Wyler, o filme virou um fenômeno, na época. Bateu recordes de bilheteria, transformando-se no maior sucesso da empresa produtora Metro - a Warner só distribui o DVD - desde ...E o Vento Levou. A presença de um superstar como Charlton Heston contribuiu para isso. A corrida de bigas, também. Concentrado no drama, Wyler nem se preocupou em dirigir a referida seqüência. Colocou-a inteiramente nas mãos dos maiores especialistas de segunda unidade de Hollywood, Andrew Marton e Yakima Canutt, e do diretor italiano Mario Soldati (por conveniência de produção, o filme foi rodado em Roma). E, embora o crédito do roteiro tenha ido só para Sam Zimbalist, que ganhou o Oscar, muita gente colaborou nele.Um desses colaboradores foi Gore Vidal, que contou, anos mais tarde, a seguinte história. Para justificar a ruptura violenta de Ben-Hur e Messala, ele criou um subtexto homossexual entre ambos, mas diz que Wyler e Charlton Heston nem desconfiaram. Eram tão straights que teriam desistido de Ben-Hur, Vidal ironiza. Transformado numa instituição de Hollywood, o cineasta realizou mais cinco filmes, mas só um deles é grande - O Colecionador, de 1965, com Terence Stamp e Samantha Eggar. O diretor, que os críticos gostam de chamar de estilista sem estilo, era mais acadêmico que clássico. Nem por isso deixa de representar uma fase importante de Hollywood. Wyler nasceu em 1902 na Alsácia (hoje francesa, na época alemã), de pais suíços. Estudou música no Conservatório de Paris. Manteve sempre profunda ligação com a França. Nos anos 60, insurgiu-se contra a nouvelle vague, que, irradiada de Paris, mudava a face do cinema em todo o mundo. Wyler fez imprimir nos seus cartões as iniciais A.V. Representam ancienne vague, a onda antiga, em oposição à nova onda. Era como se considerava. Ben-Hur (Ben-Hur). EUA, 1959. Direção de William Wyler com Charlton Heston e Stephen Boyd. DVD da Warner. Nas lojas, R$ 46,50.

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