"Duelo de Titãs" debate o rascismo

Além de ser o mesmo de um sólido western do especialista John Sturges nos anos 50 (Last Train from Gun Hill, com Kirk Douglas e Anthony Quinn), o título Duelo de Titãs não é o mais adequado para o filme de Boaz Yakin que estréia nessa sexta-feira. No original é Remember the Titans, que se pode traduzir como Lembrando os Titãs. Coloca a ênfase na oposição entre os personagens interpretados por Denzel Washington e Bill Patton, mas o espectador poderá confirmar que essa oposição não é tão radical assim. Duelo de Titãs, que estréia amanhã nos cinemas de São Paulo, usa o futebol americano para reabrir a vertente do racismo contra o negro, que já produziu tantos clássicos do cinema dos EUA.E é um bom filme, melhor do que qualquer outra aventura recente produzida pelo cinemão (dá de dez em Limite Vertical que também estréia amanhã). Boaz Yakin pode ter sido cooptado por Hollywood, mas não perdeu o rumo. Seu filme carrega no som e na fúria e exibe cenas de estádio que não ficam atrás daquelas, eletrizantes, que Oliver Stone criou em Um Domingo Qualquer. Não evita, aqui e ali, a armadilha das simplificações sentimentais e maniqueístas que empobrecem tanto a produção corrente de Hollywood, sempre preocupada em propor interpretações reducionistas do mundo, como se a vida se resumisse a uma oposição entre mocinhos e bandidos. As coisas são muito mais complicadas que isso e há, aqui fora, no mundo real, mais áreas cinzentas do que esse preto no branco que o cinema insiste em apresentar. Yakin sabe disso e é o que permite ao seu filme ser melhor (e muito) que o do badalado Stone. É melhor até no campo, para quem não entende muito as regras do futebol americano.Começa e termina num cemitério, mas não é um filme mórbido nem derrotista. Percebe-se que o diretor Yakin está enterrando alguma coisa. Ou, ao contrário, talvez esteja querendo exumar - pois há outra cena, pouco antes do meio, em outro cemitério, decisiva para o que ele quer dizer. Logo no começo (os créditos ficam para o fim), um letreiro informa que se trata de uma história real. Duelo de Titãs baseia-se na experiência dos técnicos Herman Boone e Bill Yost para levar adiante um time de futebol universitário. A época é fundamental. A luta pelos direitos civis dos negros consolidou conquistas importantes, uma delas o integracionismo nas escolas.Jovens negros começam a freqüentar universidades que até então eram exclusivas para brancos. Há um técnico branco, e vitorioso, que tem de ser substituído por outro, negro. Quando isso ocorre, o diretor do conselho da universidade diz ao primeiro técnico que se trata de uma concessão. Eles (os brancos) estão tendo de fazer isso para apaziguar os ânimos da enraivecida comunidade afro-americana. Mas ele promete que é uma situação temporária. O wasp voltará ao seu posto. Duelo de Titãs decola assim sob o signo da desconfiança entre os personagens de Washington e Patton. Não ajuda muito o fato de Washington, que se chama Boone (Patton é Yost), ser arrogante e autoritário. Ele diz que veio para vencer, não propõe nenhum esquema democrático. Institui uma ditadura férrea e trata os estudantes jogadores como soldados na caserna.A integração é difícil e chega um momento em que parece que ela nunca vai se concretizar. É quando chega a outra cena do cemitério. Sob o pretexto de fazer um exercício noturno, Boone leva seu time até o local em que lápides anunciam que ali se travou uma batalha decisiva da Guerra Civil americana - a de Gettysburg. Cem anos depois, há um outro combate pelos direitos dos afro-americanos e ele se trava tanto dentro do campo quanto no vestiário (e na comunidade inteira). Nesse processo, Boone e Yost vão aprendendo a conhecer-se (e a respeitar-se). Criticam-se, dizem-se coisas duras, um para o outro, mas é isso que vai tirando o filme do puro terreno do maniqueísmo.Numa cena, os partidários de Yost compram o juiz que apita uma partida. Se Boone perder, será demitido e Yost poderá voltar ao comando. Trata-se apenas de ser conivente com uma manobra que ele não formulou. Vão surgindo assim as lições de integridade, que são indissociáveis de um outro conceito, de responsabilidade.Yakin passa pelo cinemão sem perder a integridade de quem tem algo a dizer (e sabe como fazê-lo). Seu elenco ajuda bastante. Nem é preciso destacar a participação de Denzel Washington. A surpresa é Bill Patton. O gay do mal de Sem Saída, o thriller com Kevin Costner, especialista em personagens cínicos e ambivalentes, convence plenamente criando uma figura diferente de tudo que já fez.Duelo de Titãs - (Remember the Titans). Drama. Direção de Boaz Yakin. EUA/2000. Duração: 113 minutos. Censura livre.

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