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'Dromedário no Asfalto' é um belo exemplar de road movie nacional

Longa mostra a jornada de Pedro pelas paisagens platinas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

31 Julho 2015 | 03h00

O título já é em si intrigante - Dromedário no Asfalto, do estreante Gilson Vargas. Nas primeiras imagens, vemos um personagem na estrada, viajando de carona. Depois, descobrimos que se chama Pedro (Marcos Contreras). E que se envolve numa trip solitária, de Porto Alegre a algum ponto no Uruguai. Rota fria, pontuada por estradas semidesertas, praias invernais, contatos rarefeitos. Mesmo assim, ou até mesmo por isso, o filme nos envolve. 

Algo deve ser dito sobre os filmes de viagem. Já se falou que representam uma situação ideal para o cinema. A paisagem muda constantemente. Os personagens conhecem outros personagens. E, com a evolução da história, os próprios personagens se modificam. Por isso, a viagem é mítica, a começar pela maior de todas, a de Ulisses. 

É precisamente o que se passa com Pedro. Aos poucos, descobrimos (por sua narrativa em off) que perdeu a mãe e esta lhe recomendou procurar pelo pai, em algum lugar incerto no Uruguai. No trajeto, ele encontra alguns personagens interessantes. A moça bióloga que lhe dá carona e com quem ele toma uns tragos à beira de uma piscina abandonada. Um andarilho alemão, uma garota uruguaia, uma generosa família que o acolhe e lhe dá carona, uma dupla de beberrões em Montevidéu...

E por aí vai. Acontece muita coisa? Não. Mas só em aparência. O trabalho com as imagens mostra um diretor bastante seguro do que quer. Sua narrativa é, necessariamente, impressionista, pois se trata muito mais de uma viagem interior do que um périplo turístico. Pedro não põe o pé na estrada para conhecer belas gentes ou bonitas paisagens. Viaja porque “precisa”, se permitem a evocação com outro belíssimo road movie nacional, Viajo porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Karin Aïnouz e Marcelo Gomes. Aqui também se tem a narração em off, o deambular que, num caso, se faz a bordo de um carro, no outro pelo pedido de carona. Se no filme da dupla Aïnouz-Gomes, a necessidade da viagem se dá por motivos profissionais (o narrador é geólogo), em Gilson Vargas esse imperativo é interior. Pedro vai atrás do pai. Mas vai, sobretudo, atrás de si mesmo. Essa busca de si é o sentido profundo da viagem. 

Dito isso, falam em favor do filme algumas qualidades básicas de direção. Por exemplo, ao assumir de maneira direta e sem rodeios o tom poroso da narrativa, não se sente obrigado a explicar o personagem a cada passo. Pelo contrário. Como Pedro é um ser em crise, qualquer definição apaziguadora seria enganosa. Ele mesmo não sabe direito porque viaja, embora possa parecer que tenha no encontro do pai sua meta bem definida. Ora, quem já viajou desse jeito sabe que destinos e finalidades são fictícios. A trajetória é muito mais importante que o ponto final, assim como o navio é maior que o porto de abrigo. 

Por outro lado, a direção de Vargas enfatiza o que poderíamos chamar de “poética da estrada”, a valorizar momentos raros de encontro e epifania. Por exemplo, a garota que lhe dá carona o presenteia com um caleidoscópio, objeto que ele repassa a uma criança. O caleidoscópio é um artefato gerador de belas imagens. Não é objeto que se possua, ele deve andar de mão em mão para que produza seus efeitos e os espalhe para maior número de pessoas. 

O filme tem toques dessa natureza. Sugestões sutis, e pequenas traições à expectativa convencional do espectador. Um caso amoroso parece surgir? Ele não vem. Algo ameaça o protagonista? Nada se passa. É um pouco como a vida, que contradiz a causalidade demasiado mecânica de um tipo de cinema. No filme convencional, se alguém tosse vai morrer de tuberculose mais adiante. Aqui, um ato pode ser nulo ou insignificante em consequências. Ou não. A vida é mais caótica e desorganizada que os roteiros tradicionais de cinema. Mais aberta e fascinante, e, na tentativa de captar essa força do acaso, este Dromedário realiza sua bela travessia do deserto. 

 

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