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Drogas e paranoia trazem de volta a América de 1970 em ‘Vício Inerente’

Joaquin Phoenix coloca-se nas mãos de Paul Thomas Anderson e acerta novo filme; estreia nesta 5ª

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 Março 2015 | 03h00

Em janeiro, Joaquin Phoenix havia sido indicado para o Globo de Ouro de melhor ator de comédia ou musical por Vício Inerente e havia a expectativa de que também fosse para o Oscar pelo papel no novo Paul Thomas Anderson. Nem ele ganhou o prêmio dos correspondentes estrangeiros de Hollywood nem ficou entre os cinco finalistas para o troféu da Academia. Dane-se a Academia. A segunda parceria de Phoenix com PTA - após O Mestre - lhe fornece um dos melhores papéis de sua carreira. O próprio filme é o melhor de PTA desde Embriagado de Amor, com Adam Sandler, embora essa seja uma afirmação sujeita a controvérsia. Existem críticos que amam Sangue Negro, que deu a Daniel Day-Lewis seu terceiro Oscar, e o citado O Mestre. Mais uma afirmação polêmica - nada se compara a Boogie Nights - Prazer sem Limites nem Magnólia, do próprio PTA.

É raro, mas nenhum outro diretor de sua geração virou sigla. Nenhum de nenhuma outra geração. Ninguém fala de Steven Spielberg como SS, até pela inadequada conotação nazista, nem de Martin Scorsese como MS, mas, na imprensa dos EUA, Paul Thomas Anderson é sempre referido como PTA, pi-ti-ei. Fica sonoro e, de certa forma, transforma o autor numa ‘entidade’. Em janeiro, ainda na expectativa do Globo de Ouro e do Oscar, o Estado publicou uma entrevista com Joaquin Phoenix. “Não podemos separar o trabalho de ator do diretor”, ele disse. “Tenho tido sorte em trabalhar com grandes diretores. Às vezes, acontece de um ator transcender o diretor, mas, no geral, você é refém dele. Sei que o que acabei de dizer tem uma conotação negativa. Não é bem o que queria falar. Mas acho que, se faço um bom trabalho, é por causa do diretor.”

No caso de Vício Inerente, por causa de PTA. O filme baseia-se no livro de Thomas Pynchon e é a primeira adaptação do escritor com fama de recluso, maldito. Nasceram um para o outro, o romancista e o cineasta.

Ambos gostam de narrativas complexas, muitas subtramas e personagens consumidos pela paranoia. O Doc Sportello de Joaquin Phoenix em Vício Inerente é típico. Detetive particular em Los Angeles, em 1970 - o ano em que PTA nasceu -, Doc vive em meio à névoa das drogas que consome. De cara, a narradora informa que aquele não foi, do ponto de vista do zodíaco, um bom ano para drogados. E a culpa é do policial com o curioso apelido de BigFoot, interpretado por Josh Brolin.

BigFoot é Pé Grande em inglês e Doc, faça a ilação que quiser, deve ter os pés mais sujos da história de Hollywood - que exibe a todo momento para a câmera. Joaquin Phoenix deve ter feito o sacrifício de não lavar os pés durante toda a filmagem, o que motiva um comentário divertido da juíza Reese Whiterspoon, com quem ele vai para a cama. Só para lembrar - Phoenix e Reese formaram dupla em Johnny & June, a cinebiografia de Johnny Cash e June Carter, quando ela ganhou o Oscar, embora quem merecesse de fato fosse ele, que nada levou. São histórias da Academia que o vento (não) levou.

Desde a cena inicial, o policial parece empenhado em infernizar a vida do detetive particular, que, por sinal, facilita sua tarefa ao acordar na cena de um crime, com um morto ao lado e perante toda a força-tarefa da polícia de Los Angeles. BigFoot tentou carreira no cinema, não conseguiu ir adiante. Parte da beleza de Vício Inerente vem do fato de o roteiro - do próprio PTA - criar o antagonismo entre Phoenix e Brolin. Normalmente, ele levaria a uma curva, ou arco dramático, mas não é o que ocorre e o final dá novo sentido, muito mais intenso - com direito a lágrima e tudo -, à ligação dos dois. Vale assinalar que, se Joaquin Phoenix é (muito) bom, Josh Brolin consegue ser, pelo menos aqui, ainda melhor que ele.

E há a mulher, Shasta, o objeto de desejo de Doc. Os dois drogavam-se juntos na onda de paz & amor, a droga terminou antes e ela foi ser amante de um chefão do mercado imobiliário. Mickey Wolfmann é judeu, mas não se desloca sem a guarda de uma gangue de neonazistas. PTA (e Pynchon) fazem um filme de opostos, subvertem o que seria o maniqueísmo tradicional do cinemão. A trama, propriamente dita, deslancha quando Shasta ressurge na vida de Doc pedindo ajuda. Ela suspeita que Wolfmann será alvo de um golpe por parte da mulher e do amante, que vão interná-lo como louco. Wolfmann e a própria Shasta desaparecem, Doc acorda na cena do crime e, quanto mais investiga, mais se enreda (com um barco que serve de fachada para uma organização de traficantes, com prostitutas especializadas no oral, etc.). BigFoot está sempre no seu encalço, nessa Los Angeles assombrada pelos crimes da seita de Charles Manson. No desfecho, a redenção do maluco beleza é transferida - para outro integrante da trama.

Embora autor de uma obra ainda curta - apenas sete títulos -, PTA não deixa de praticar a referência, e a autorreferência. O filme tem o visual da produção barata de Hollywood, pós-Sem Destino/Easy Rider, quando sexo, drogas e violência, mais que rock’n’roll, ditavam as cartas. Quando Doc visita a mulher de Wolfman, a casa está abrigando uma festa que se assemelha àquelas da indústria pornográfica de Boogie Nights, com direito a close do short (justinho) do amante cafajeste quando ele avança para a câmera sem mostrar a cara, mas exibindo o resto.

Críticos como Harold Bloom, que considera Pynchon um dos quatro autores canonizáveis do romance pós-moderno dos EUA (com Don DeLillo, Cormac McCarthy e Philip Roth), assinalam que o escritor cria uma realidade entrópica tangível apenas pela paranoia. Estão falando de Pynchon, ou de PTA? São autores gêmeos, na literatura e no cinema.

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