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Drama 'Border', do iraniano Ali Abbasi, é fábula de solidão e estranheza

Vencedor da mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2018, filme é surpreendente com sua história de amor entre estranhos, no sentido de bizarros; veja trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. paulo

13 de abril de 2019 | 03h00

Talvez tenha sido a unanimidade do Festival de Cannes do ano passado. O filme mais surpreendente – o que menos tinha a cara da seleção oficial, que engloba competição e Un Certain Regard – foi Border. O mais surpreendente ainda é que a produção sueco/dinamarquesa dirigida pelo iraniano Ali Abbasi venceu o prêmio de Un Certain Regard. Ao contrário da competição, que ‘blinda’ seus vencedores, Abbasi e seu elenco saíram no meio do público em meio a apertos de mãos e perguntas roubadas de jornalistas que seguiam a dupla. 

Quem assiste ao filme, que estreou na quinta, 11, pode até tomar um choque com a aparência do casal de protagonistas. Parecem representações do homem primitivo do Neanderthal. Não é uma questão de beleza. São estranhos. A sueca Eva Melander não é nada daquilo. E, como atriz, é extraordinária.

Desde que deixou o Irã, Abbasi radicou-se na Suécia. Faz filmes com uma pegada fantástica, mas se recusa a admitir que faz cinema de gênero. “Não gosto de literatura nem de filmes fantásticos. A ficção científica aborrece-me, o horror também. Mas sou sensível a autores como Gabriel García Márquez. Quando você vive num país como o Irã, convivendo com o absurdo cada dia de sua existência, sua percepção do fantástico muda radicalmente. Você não precisa de super-heróis nem de dragões voadores para sentir que faz parte de outra dimensão, outro mundo. Respeito muito a diversidade e a representatividade. Mas você não precisa ser gay, nem negro, nem mulher para ser diferente. Sou de outra cultura e sou diferente na Suécia. E gosto de mostrar como homens e mulheres loiros e belos podem se sentir diferentes no seio da própria cultura.”

Falando à TV do festival, Abbasi disse que fez um filme no limite. Pegando carona na situação dos refugiados, um filme de fronteira. Começa justamente num posto de fronteira. Tina/Eva Melander é agente de alfândega. Tem essa aparência bizarra e um dom. Ela consegue farejar os homens e mulheres que tentam driblar a segurança. Percebe o seu medo e até o que eles estão escondendo. Só que o filme não é sobre uma mulher estranha com um nariz especial. Segundo o diretor, é sobre uma mulher solitária, insatisfeita com sua vida e que possui uma aparência diferente e um olfato apurado. De cara, essa situação é explicitada. Surge esse homem que imediatamente provoca uma reação em Tina. Vore possui características físicas semelhantes às dela. Seu cheiro desperta a fêmea em Tina e, embora ela tenha um companheiro, ela o dispensa para ficar com Vore.

A paixão entre estranhos, no sentido de bizarros. Ali Abbasi filma uma cena de sexo que foge aos padrões do que o público está acostumado a ver. Tina e Vore excitam-se na mata, na água do rio. Copulam feito animais. Puro instinto. A cultura repressora parece não agir sobre ambos. Tina chega a dizer ao parceiro – “Sou disforme.” Ele retruca – “Você é perfeita.” Não é As Boas Maneiras, da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, em que uma mulher engravida de um lobisomem e dá à luz bebê que se transforma na noite de lua cheia. A diferença – o outro – não se liga a um código de gênero.

Toda a riqueza e complexidade de Border está nesse diálogo. “Sou disforme (ou deformada”, “Você é perfeita”. O que pode parecer mais estranho, nisso tudo, é uma inversão de gênero – Tina vê se desenvolver nela uma genitália masculina, enquanto a de Vore é feminina.

Abbasi é um sujeito perfeito afável, de fala mansa. E ri das próprias provocações – “Se uma pessoa pudesse ser comparada a um carro, quais partes poderiam ser retiradas, ou substituídas, e ela ainda permaneceria humana?” Na apresentação de seu filme, no palco da gigantesca Sala Claude Debussy, no palais, Abbasi já havia alertado. “O que você vão ver não é uma história sobre a fluidez de gêneros, é sobre identidade. Sobre uma mulher solitária que sempre foi considerada uma ‘freak’. Tudo o que ela quer é sua dignidade e um pouco de respeito.”

Border começou como uma história curta, que Abbasi adaptou do escritor Lindqvist. Quando ele começou a desenvolver os personagens e as situações, o autor deu-lhe carta branca, mas saiu de cena. A sua história era uma e ele autorizou Abbasi a fazer a dele. Seria fácil tentar ver em Border uma metáfora da situação do próprio Abbasi.

Nascido em Teerã, foi estudar arquitetura na Escandinávia. Fixou-se na Suécia, trocou a arquitetura pelo cinema. Por não dominar a língua, sentia-se diferente, mas não um ET. “Na vida, o que faz a diferença é estar no contexto certo, com as pessoas certas.”

 

 

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