"Downtown" traz Basquiat como ator de si mesmo

Poderia ser apenas um documento deépoca, mas vai além disso. Filmado entre os anos 80 e 81,Downtown 81 põe o foco no artista plástico Jean MichelBasquiat, morto aos 27 anos em 1988. Ele acorda em um hospital,sai, e na rua encontra uma bela mulher em um conversível,Beatrice (Anna Schroeder). No resto do filme, Basquiat irá noencalço dessa criatura, como quem vai atrás de um sonho, de umautopia, do Graal.Mas, no fundo, tudo isso é fiapo de história, uma fábulaurbana, que põe em cena personagens reais, como Melle Mel, JohnLurie, Lydia Lunch e Arto Lindsay. Mostra, sobretudo, um bairro,o Village, e uma época na vida de Nova York. Nesse sentido, ofilme transmite muito mais verdade - e informação - do que oficcional Basquiat, de Julian Schnabel. Mas, claro, este era, de certa forma, uma cinebiografia que visava a apresentar aoespectador o artista plástico, sua vida, sua obra, seurelacionamento com marchands, com VIPs como o sobrevalorizadoAndy Warhol, etc. Downtown contra com o próprio Jean Michelcomo ator de si mesmo.Há um frescor na maneira como a filmagem é feita. O usoconstante da câmera na mão dá tom intimista, ágil, familiar.Assim, acompanhamos o personagem de sua saída do hospital até oencontro com a loira motorizada, que o deposita mais adiante.Vemos como ele passeia pelas ruas, reencontra amigos, compra umpouco de droga, tenta entrar no apartamento, mas vê-se impedidopelo senhorio que cobra os atrasados. Conhecemos o apartamentocaindo aos pedaços, atulhado de obras, como convém ao artista.Depois o acompanhamos pela noite, pelas boates apertadas, pelosporões onde se toca música, se dança e se namora. Tudo édocumental.Nova York também aparece sob sua face mais simpática, ada heterogeneidade. Claro, é um recorte, como se diz. O meio deBasquiat é o dos artistas, dos intelectuais, dos boêmios. Nele,os preconceitos são abolidos, as etnias convivem, os diferentesdialogam. Como todo filme celebratório, este também fala de umautopia. Multiétnica, multicultural, democrática.E, claro, há a pitada crítica de um artista undergroundao comercialismo que domina o ambiente das artes. Basquiat serelaciona com uma ricaça de meia-idade (casada, claro),interessada em seus quadros apenas para efeito de decoração.Precisa de certas cores para combinar com as poltronas ecortinas. A isso se reduz a arte. A ironia de Basquiat vale comocomentário suficiente sobre o filistinismo moderno.A estrutura do filme é modesta, foi pensado mesmo comoregistro, sendo que a trama ficcional mínima comparece comodesculpa para a tomada documental. É a espontaneidade que dá aele aquele algo mais. Enfim, transmite aquele encanto própriodas produções muito precárias, desiguais, mas muitointeressantes em sua simplicidade aparente.A história da produção ilustra sua própria temática,pois o filme foi rodado e depois abandonado sem conclusão devidoa dificuldades financeiras. Foi redescoberto apenas em 1999 e,submetido a um processo de recuperação, veio a público na formaatual. Foi exibido no Festival de Cannes de 2000. Mesmorecuperado com toda a tecnologia disponível, guarda as marcas desua origem. A granulação revela que provavelmente foi rodado em16 milímetros e apenas depois ganhou ampliação para o formatocomercial de 35 milímetros.Nada disso atrapalha. Pelo contrário. A granulação, osproblemas de contraste em algumas de suas partes, a precariedadede "atuação" de personagens que interpretam a si mesmos - tudoisso apenas agrega valor à sua autenticidade. É um trabalho quese vê com prazer. E alguma nostalgia, mesmo que o espectador nãotenha nem de longe vivido a experiência daquele tempo oudaqueles lugares. Sente-se que deve ter sido algo dilacerado,mas muito prazeroso.Flagrado no momento em que as coisas aconteciam,Downtown não pode (nem quer) entrar em muitos detalhes técnicossobre essa época efervescente da arte americana. Estavam empauta a música new wave, a new painting, o hip hop e a arte dosgrafites. Era um momento importante para a desterritorializaçãoda arte, e, junto com ela, vieram todas as possibilidades deimpostura. Mas o filme não trata disso. Apenas registra oespasmo do nascimento. O que acontece depois com a criança éoutra história.Downtown 81 (Downtown 81). Documentário. Direção deEdo Bertoglio. EUA/2000. Duração: 75 minutos. 18 anos.

Agencia Estado,

06 de fevereiro de 2003 | 15h37

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