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'Downton Abbey' transforma ingredientes amargos da opressão e desigualdade em refeição agradável

Filme retoma a história do clã Crowley em 1927, pouco tempo depois do fim da série que fez grande sucesso ao longo de seis temporadas

Jeannette Catsoulis, The New York Times

25 de setembro de 2019 | 10h32

“É como nos velhos tempos”, diz orgulhosamente Cora Crawley, condessa de Grantham (Elizabeth McGovern), enquanto Downton Abbey reúne todos os rostos familiares numa agitada preparação para uma visita real. Espectadores que acompanharam fielmente por seis temporadas as suaves atribulações do clã Crawley não precisam que eu os encoraje a mergulhar de novo no tépido banho de privilégios da série. Já quem prefere suas abluções com menos espuma, não precisa assistir.

Os velhos tempos (o “bons” ficou de fora) são, é claro, o que o universo de Downton Abbey vende - a magnífica fantasia de uma aristocracia gentil, de servos agradecidos e de noblesse oblige. Retomando a história em 1927, pouco depois da época do fim da série, o filme encontra a mansão se preparando para uma exibição de luxo em um suntuoso jantar e um grande baile em honra do rei George V e da rainha Mary.

Em meio ao burburinho, lady Cora distribui seus costumeiros olhares serenos e ordens discretas. Lady Mary (Michelle Dockery) continua falando dos problemas financeiros da propridade. E Violet, a matriarca viúva (a indispensável Maggie Smith), faz intrigas para garantir uma herança de família.

Entre a criadagem, Daisy (Sophie McShera) flerta com um atraente encanador e, com a casa sem mordomo, o confiável e arrogante Carson (Jim Carter), fervoroso defensor de princípios, é bajulado para sair da aposentadoria. Ocorrem alguns pequenos furtos, uma rápida tentativa de assassinato e problemas com um aquecedor. O tema das conversas é a política e o escândalo de um clube gay clandestino no qual um grupo de homens costumava dançar animadamente o black bottom. Essa é cena mais vívida do filme e a mais surpreendente, porque nos anos 1920 o norte da Inglaterra dificilmente seria considerado um santuário gay.  

Com pouco enredo para avançar, a maioria dos personagens tem pequena participação. Na falta das saborosas tramas do passado, das ligações entre culturas e do inconveniente cadáver encontrado nos aposentos de lady Mary, o filme é de baixo teor calórico. O roteirista, Julian Fellowes (que criou a série de TV), sabe que suas histórias sempre se sustentaram menos em palavras que nos looks suspicazes e assustadores que aparecem nas reuniões sociais. Coreografar tudo foi trabalho para o diretor, Michael Engler, que prolonga cada franzir de cenho se o transporta para as roporções maiores do cinema – conseguindo milagrosamente não fazer de todo close-up um cartum.

Nessa estética espetacularmente detalhada dos personagens, que seguem os conhecidos caminhos de suas personalidades, Downton Abbey se atém insistentemente ao status quo. Lady Mary se questiona sobre o futuro da aristocracia e é reassegurada – por um criado, imagimem - de que ela e seus pares são não apenas relevantes, mas essenciais. E, quando a greve geral de 1926 é mencionada, serve apenas como deixa para Violet se lembrar de que sua criada ficou “muito rude” com ela na ocasião. Entretanto, servindo num sistema de classes tão rígido quanto a coluna vertebral de Violet, a criadagem de Downton é tão devotada aos patrões que mesmo quando ensaia uma rebelião o propósito é negar a si mesma uma noite de folga.

Não se pode deixar de admirar a habilidade de Fellowes em transformar os ingredientes amargos da opressão e desigualdade em uma refeição agradável. Assim, quando Henry Talbot (Matthew Goode) começa a valsar, minutos antes do fim do filme, com lady Mary, e garante a ela que Downton vai existir para sempre, os espectadores fiéis vão se sentir tão aliviados quanto à aristocrata.

Downton Abbey estreia no Brasil no dia 21 de novembro.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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