Marco Antonio Teixeira/Migdal Filmes
Marco Antonio Teixeira/Migdal Filmes

Dona Hermínia é libertária sem escandalizar famílias

Personagem de Paulo Gustavo brilha em 'MInha Mãe É Uma Peça 3'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 06h00

Quem poderia supor que essa mãe desbocada, com bóbis no cabelo, marcaria com sua irreverência a já meio cansada comédia nacional?

Talvez uma primeira aproximação esteja nesse termo, “irreverência”. Há exceções, por sorte, mas os filmes em particular, e as obras artísticas em geral, parecem sofrer o peso dos tempos. Fica difícil fazer humor cáustico sem que algum grupo se sinta ofendido. E fazer humor comportado é a mesma coisa que não fazer humor. 

De maneira mais ou menos sutil, as pressões por um humor “mais conveniente” se generalizam. Junto com o necessário respeito aos grupos já discriminados, vão-se embora a espontaneidade e o arrojo. Nesse sentido, Dona Hermínia parece um sopro de liberdade. Num mundo em que toda palavra precisa ser medida para evitar reações e punições nas redes sociais, Dona Hermínia parece dizer o que lhe vem à cabeça. E não precisa ofender ninguém para ser engraçada e assumir uma posição libertária. 

Nas salas de cinema, dá para ver como a plateia reage e se diverte com a fala ligeira e desconcertante de Dona Hermínia. O roteiro é elaborado e os diálogos são reescritos várias vezes – mas o resultado passa espontaneidade, raciocínio veloz, respostas na ponta da língua. Paulo Gustavo usa essa técnica de falar bem rápido, de modo que o espectador fique enganchado no diálogo, sem tempo para se distanciar. Domingos Oliveira fazia a mesma coisa.

Essa, a forma. O conteúdo é progressista, o que nem sempre ocorre com a comédia. O “humor” racista, homofóbico, misógino, que debocha de pobres e grupos frágeis é apenas reacionário. Tem por efeito reforçar a estrutura injusta da sociedade e ridicularizar quem a ela se opõe. O humor libertário é inclusivo. Questiona preconceitos e abre a cabeça do público para aquilo que é diferente dele. Esse, o mérito de Dona Hermínia: num tempo careta, é progressista e põe em xeque preconceitos – sem escandalizar a facilmente escandalizável família brasileira. Afinal, mãe é mãe e merece respeito. 

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