"Dona Flor" volta com cenas inéditas

Sabe aquele tipo de filme que "todo mundo" viu e quem por acaso não viu fica automaticamente por fora da conversa? Acredite, isso já aconteceu por aqui - e com o cinema nacional. Lançado há 25 anos, Dona Flor e seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, foi sucesso absoluto. Num Brasil de 110 milhões de habitantes, vendeu 11 milhões de ingressos. Cifra desse tipo não se repetiu. Provavelmente não se repetirá, pois as condições - do País e do cinema - mudaram muito. Para comemorar essa data exata, e também esse grande êxito, o longa-metragem, baseado no romance homônimo de Jorge Amado, será relançado dia 30, com cópia remasterizada e cenas inéditas, na época vetadas pela censura. O filme entra em cartaz no Rio, em Brasília, Fortaleza, Goiânia, no Recife e em Salvador.São Paulo deverá esperar até janeiro para assistir à ciranda amorosa de Dona Flor (Sônia Braga), entre seus dois maridos, o vagabundo romântico, Vadinho (José Wilker), e o chato pontual como relógio, mas ruim de cama, Teodoro (Mauro Mendonça).Dona Flor foi mesmo um fenômeno de bilheteria. Números oficiais, segundo o Concine (órgão extinto por Collor): 10.735.305. Quase 11 milhões, que devem ter sido ultrapassados pelos relançamentos do filme. A família Barreto, produtora do longa-metragem, fala em 12 milhões de espectadores e não deve andar longe da realidade. Fiquemos com os dados oficiais. Esse número, se aceito, significa o seguinte: no Brasil de então, com 110 milhões de habitantes, uma em cada dez pessoas assistia ao sucesso de Bruno Barreto. Para fazer o mesmo público proporcional, um filme teria de levar, hoje, 17 milhões de pessoas às salas de cinema. Nem Titanic, o maior sucesso estrangeiro no País, conseguiu a proeza, mas chegou perto, fazendo 16 milhões de espectadores. De qualquer forma, Dona Flor é, até hoje, a terceira maior bilheteria do Brasil, sendo superado apenas por Titanic e Tubarão, de Steven Spielberg, este com 13 milhões de pagantes.Nos tempos da Embrafilme - Um fenômeno como Dona Flor pode ser repetido? As opiniões divergem. O cineasta Arnaldo Jabor acha difícil: "Naquela época havia muitas salas populares, os preços eram baixos, o cinema era ainda a melhor diversão, não custava 5 ou 6 dólares o ingresso e a oferta da TV não era grande", diz. Além disso, continua Jabor, havia a eficiente distribuição da Embrafilme, que contava em seus quadros com executivos de talento e imaginação, como Marco Aurélio Marcondes, Jorge Peregrino, Gustavo Dahl e Rodrigo Saturnino Braga. Todos eles, com exceção de Dahl, estão hoje na iniciativa privada, que paga bem, não é boba e sabe recrutar talentos.O próprio Jabor beneficiou-se dessa boa política de distribuição e conseguiu fazer 3,5 milhões com seu Eu Te Amo de 1980. Segundo ele, "a tal reserva de mercado, tão estigmatizada pelos neoliberais, funcionava. Cinema tinha espaço, contrato com exibidores, data para entrar e sair, e tudo era respeitado. A partir de 1984, 85 começou a bagunça." Que culminou com o governo Collor e o desmanche generalizado dos órgãos que cuidavam do cinema nacional.Roberto Farias, diretor do clássico Assalto ao Trem Pagador, e à época presidente da Embrafilme, lembra que a empresa tinha forte atuação no mercado para garantir espaço para o filme brasileiro. Dona Flor, lançado isoladamente, sem a política de conquista de mercado da época, não teria feito o mesmo sucesso, garante. "Mas mesmo Dona Flor foi objeto de pressão para sair de salas exibidoras de São Paulo e eu, pessoalmente, argumentava com os proprietários dos cinemas, ao mesmo tempo que exigia das autoridades responsáveis pelo cumprimento da Lei que mantivessem o filme em cartaz, já que ele estava explodindo nas bilheterias."Hector Babenco (5,7 milhões de espectadores com Lúcio Flávio - Passageiro da Agonia) acha que o sucesso pode se repetir. "Desde que o ingresso custe 80 centavos de dólar, como na época", ressalva. Para Babenco, a equação do cinema nacional não fecha por um motivo simples. O preço do ingresso subiu muito acomodando-se a patamares internacionais, mas o poder aquisitivo do brasileiro ficou na mesma, ou praticamente na mesma. O resultado: elitização do público de cinema no País. "Um casal hoje gasta R$ 24 para ver um filme; com essa grana, ele faz a feira e abastece a casa", diz.O preço do ingresso poderia ser mais barato? Em termos, porque o custo de produção também subiu, lembra Babenco. "Fiz O Beijo da Mulher Aranha com R$ 2,5 milhões; em Carandiru, produção semelhante, apenas com número maior de extras, vou gastar mais de R$ 10 milhões." Filmes caros, ingresso caro, poder aquisitivo baixo. Quer dizer, o cinema hoje tem de se acomodar a uma platéia de classe média para cima, perdendo contato com o público popular.A questão é só econômica? Não é o que pensa Neville D´Almeida, respaldado pelos 6,5 milhões de espectadores que conseguiu atrair para o seu A Dama do Lotação, adaptado de Nélson Rodrigues. "Há uma crise de criatividade no ar", diagnostica. "Falta ao cinema de hoje ousadia, competência, qualidade", dispara. Neville aponta três vícios do cinema brasileiro contemporâneo: a tentativa de imitar a televisão, a submissão à estética do cinema americano e o desprezo pelo público.Feijão e sonho - Neville deve ter alguma razão. Bruno Barreto, então com 21 anos, conseguiu adaptar com fidelidade o texto apimentado de Jorge Amado. Flor casa-se com Vadinho, que é bom de cama, mas também boêmio inveterado, jogador, beberrão, mulherengo. Vadinho morre com 31 anos, numa farra de carnaval, e deixa uma viúva inconsolável. Que no entanto se consola com o oposto do boêmio, Teodoro Madureira, farmacêutico, metódico e competente em tudo na vida - menos na esfera sexual, na qual é cumpridor, mas burocrático. Trazido pelo desejo de Flor, Vadinho retorna do além e eis a mulher servida na mesa e no leito, e no melhor dos mundos. Tem aventura e segurança, prazer e rotina, feijão e sonho. Amado é mestre nessa síntese de elementos incompatíveis, e nesse equilíbrio do impossível reside o encanto do livro.Quanto ao filme, claro, bebe nessa fonte, mas conta com trunfos adicionais. "Sônia Braga vivia um momento mágico e José Wilker era uma combinação quase perfeita de boa qualidade de interpretação com a de supergalã", afirma Paulo Sérgio Almeida, cineasta e diretor do Filme B, o melhor informativo de mercado do cinema nacional. Almeida lembra ainda que essa história picante falava ao inconsciente das mulheres, tocava no tema do sobrenatural e transformava tudo numa divertida comédia.Dito assim, parece fácil. Difícil é atingir a química desses raros filmes que dão certo - tão inimitáveis quanto as receitas que a cozinheira de forno e fogão, Dona Flor, tentava (em vão) ensinar em sua escolinha de culinária.

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