"Dona Flor" francesa chega hoje ao Brasil

Ariane Ascaride desembarca hoje em São Paulo. Vem para a exibição especial, para convidados, à noite, no Cineclube DirecTV, do novo filme de Robert Guediguian. Marie-Jo e Seus Dois Amores estréia dia 29. Será distribuído no País pela Imovision, que está trazendo a atriz. Ariane quem? Robert quem? Se você não sabe quem são está passando atestado de que não é cinéfilo. Ariane e Guediguian fizeram um dos filmes de maior sucesso este ano no circuito de arte. A Cidade Está Tranqüila, também distribuído pela Imovision, virou marco de um cinema crítico e antiglobalização.Não por acaso, o próprio autor esteve no Brasil, em fevereiro, para participar, em Porto Alegre, do Fórum Mundial Social contra o novo mundo globalizado - e intitulado, por isso mesmo, Um Outro Mundo É Possível. Marie-Jo integrou a mostra competitiva do Festival de Cannes, em maio. Muitos críticos acharam um absurdo que Ariane não tenha recebido o prêmio de melhor atriz. Ela é magnífica como Marie-Jo, essa marselhesa - todos os filmes de Guediguian passam-se em Marselha - casada, que ama o marido, mas não resiste ao assédio de outro, a quem passa, também, a amar. Pode-se amar duas pessoas ao mesmo tempo? O cinema em geral faz comédias em torno desse assunto e uma das melhores é Dona Flor e Seus Dois Maridos, que Bruno Barreto adaptou do romance de Jorge Amado - e que possui o atenuante, para os moralistas de plantão, de que um dos maridos é o ex, que agora virou fantasma.Guediguian trata o assunto como uma tragédia. Quer dizer: no início, não é uma tragédia - é só prazer. A barra pesa quando a nova relação sai das quatro paredes e começa a ser conhecida pelo marido, pela filha. Numa entrevista por telefone, de Paris, o diretor reafirmou-se como "um homem de esquerda" - já havia dito isso em fevereiro ao Estado, pouco antes de viajar para Porto Alegre -, e acrescentou que o romantismo não é incompatível com o marxismo, pelo contrário. "A política é um ato coletivo; o amor é uma opção individual, mas ambos podem e eu diria que devem ser revolucionários."Aos 17 anos, simpatizante do comunismo, ele lia O Capital, de Karl Marx, durante o dia, mas à noite seu livro de cabeceira era o Werther, de Goethe.Marie-Jo nasceu dessas influências e também de outras, até cinematográficas, que construíram a identidade de Guediguian, mas ele diz que seu cinema não é referencial. O que foi assimilado em anos de vida participa do seu trabalho como uma bagagem da qual ele não pode, nem quer, se desvencilhar.A Imovision é uma distribuidora brasileira de um francês radicado no Brasil, Jean-Thomas Bernardine. Como distribuidor de filmes de arte, tem privilegiado o cinema francês - ou as co-produções internacionais de que a França participa, por meio de programas como o Fond Sud, que dá apoio a países abaixo do Equador.A Imovision colocou A Cidade Está Tranqüila nas telas do País. Jean-Thomas ficou satisfeito com a discussãso estética e política que a obra-prima de Guediguian provocou. Ariane chega hoje em companhia de Michel Vauzelle, presidente da Région Provence Alpes Côte D´Azur. Na França, as diferentes regiões possuem programas próprios de incentivo à produção cinematográfica (e cultural, em geral). Por meio da Région Provence, Vauzelle deu dinheiro para Marie-Jo. É um bom interlocutor para quem quiser discutir as políticas públicas (regionais) de apoio à cultura na França.

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