'Dominguinhos' mostra sem rodeios a formação múltipla do músico

O documentário acerta ao tomar o depoimento de vida do sanfoneiro, que escutamos em off enquanto a fala é coberta por imagens

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2014 | 19h30

Música e cinema: tudo a ver. Pelo menos tem sido assim no Brasil, em que o documentário musical já pode ser tido como um gênero em si. A força da música brasileira, sua diversidade, seus bons personagens têm rendido muitos filmes. O mais recente é Dominguinhos, sobre formidável cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano, morto em 2013.

Em sua proposta de traçar um arco tão completo quanto possível da existência de José Domingos de Morais, a trinca de diretores – Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar – vai em busca das raízes de sua formação. Há um traçado cinematográfico na primeira abordagem da história, contemplando de forma plástica o ambiente em que o futuro Dominguinhos vem à luz e cresce. O sertão, o frio de Garanhuns, a vida enraizada numa cultura, a nordestina, na qual a música tem importância particular. Depois, o contato com o instrumento e a aproximação a Luis Gonzaga, que o apadrinha.

O documentário acerta ao tomar o depoimento de vida do próprio Dominguinhos, que nós escutamos em off enquanto a fala é coberta por imagens ou, melhor ainda, por sua música. E aí está a escolha a ser feita, e quase óbvia, mas nem sempre seguida pelos filmes do gênero: há muita música neste documentário musical. Por outro lado, não se ouvem especialistas na obra do artista, que fala, ou soa, por si. Evitam-se repetições.

De fato, ninguém precisa ser convencido por um crítico de que Dominguinhos é um grande artista. Para saber disso, basta ouvi-lo tocar sozinho, ou em algumas seletas companhias, como João Donato, Hermeto Pascoal, Yamandú Costa, Luis Gonzaga, Gal Costa, Nana Caymmi e Gilberto Gil.

Por isso, pela sofisticação que imprime a um instrumento que se arriscava em desuso no sul maravilha, em especial na época da bossa nova, espanta saber que não lia música. Fala, de modo engraçado, como tentou aprender, mas, por um motivo ou por outro, por preguiça ou por viagens, acaba desistindo das partituras e das lições de harmonia. Seu formidável ouvido musical supria a ausência de formação teórica.

E, se Domingos já chegou ao Rio com Ph.D em seu instrumento, o trabalho contínuo pelos bailes da vida tornou-o versátil e experto em vários gêneros musicais. Com uma ressalva, feita na maturidade: "Acabo sempre voltando para o baião". Nem precisava dizer. Basta ouvi-lo tocar com um príncipe do piano como João Donato para sentir que, por trás da entonação jazzística, existe o toque do sanfoneiro. No entanto, afastara-se do baião durante alguns anos, durante os quais recolocara seu instrumento no patamar nobre que lhe é devido. Quando convidado a gravar um disco de baião hesitou. Mas o produtor o convenceu: "Você não é nordestino? Nordestino nunca esquece o ritmo".

O baião e outros ritmos são matrizes. O samba aprendido e praticado nos anos em que morou em Nilópolis e no Rio, o jazz como forma evolutiva e base do improviso completam a receita. É preciso muito talento e muita mistura para formar um músico do quilate de Dominguinhos. O trunfo do filme é expor sem muitas firulas as vertentes múltiplas do artista.

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