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Diretor de 'Infância' diz que o artista mente para ser sincero

Filme de Domingos Oliveira tem Fernanda Montenegro no elenco

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2015 | 03h00

Na entrevista da capa, Fernanda Montenegro fala do novo filme, Infância, que estreia na quinta-feira, 10, no Rio, em São Paulo e Salvador. Diz que é autobiográfico e elogia o diretor Domingos Oliveira pela coragem de refletir sobre sua classe – a elite brasileira. O filme é ótimo, mas o próprio Domingos não está muito seguro de que seu cinema confessional seja também autobiográfico. “Mas será que tem importância isso ser ou não ser autobiográfico?”, ele se pergunta numa entrevista realizada por e-mail. “Eu minto muito. Na minha autobiografia – Vida Minha (Editora Record) –, confesso que todas as vezes que tive de escolher entre o biográfico e um final melhor para o capítulo, optei pela segunda hipótese.

A imaginação sempre foi a alma do negócio. (Jean-Paul) Sartre afirma que ela é a única capacidade livre do homem. Mas quando numa cena de cinema ou teatro você tem o aval da vivência, tudo fica mais seguro. O fato não existe, não é mesmo? Existe a impressão do fato, que é diferente para cada um. Existiu uma cachorra que morreu, minha mãe, meu pai e minha avó se parecem com as personagens no filme. E eu tinha um primo que queria me comer, mas as semelhanças param quase por aí. Muitas vezes para contar a história de verdade você tem que mentir.”

Domingos Oliveira fez história no cinema brasileiro quando, em meados dos anos 1960 – num momento em que o Cinema Novo queria ser revolucionário –, ousou falar de amor, fazendo um filme que era uma declaração à estrela que melhor encarnou o sentimento libertário da época, Leila Diniz. Desde então, nunca mais parou de filmar. É quase meio século de cinema, e muitos bons filmes. O curioso é que todo grande autor sente num determinado momento a necessidade de revisitar a própria história. Pense em Federico Fellini, Oito e Meio, Amarcord. Em Edgar Navarro, Eu Me Lembro. Em Proust, no romance-rio Em Busca do Tempo Perdido.

O que desencadeou o processo de Domingos? Qual foi sua madeleine? “É inalienável. Todo cineasta tem direito a seu Amarcord. Seria cruel se não fosse assim. O passado é terra de ninguém. Vago, impreciso, procurando definição e o cinema é o local ideal para isso. O filme que assalta as portas do passado obedece apenas à vontade natural do homem de saber de onde veio.” 

Como todo filme do autor, e mesmo centrado em seus verdes anos, Infância aborda o tema do casal, os relacionamentos, os processos criativos. Fundamentalmente, é uma história de família. Como foi a de Domingos? Como ajudou a configurar o artista em que ele se transformou? “Basicamente: o que não mata engorda. A fantasia é o único caminho saudável (existem tantos outros!) de fugir do absurdo da condição existencial. O menino baixinho, tímido e orelhudo que fui, a asma que tive, os preceitos burgueses, rígidos da minha família, a possessividade da minha mãe, claro que devo isso tudo, meu destino de artista, a eles. Por outro lado, essas coisas poderiam ter me destruído se não houvesse também a bondade e aceitação da vida que caracterizavam meu pai. Todo mundo sofre. Isto aqui é um vale de lágrimas. Por isso, de alguma forma, acredito que todos os homens deviam ser artistas.”

A matriarca de Fernanda Montenegro tem o pé na realidade ou foi a entrada da (grande) atriz que definiu a personagem? “Minha avó tinha sua grandeza, teve escravos, foi muito amada pelo meu bisavô fazendeiro e pelo José ‘do barbante’, além do que era baiana, tinha aprendido a almejar a corte imperial. Fernanda que é um gênio, por sinal, captou tudo isso. Às vezes, mais profundamente que eu. Atinge a essência da minha avó patriarca. Bonita, elegante, autoritária e, por causa do seu radicalismo, muito engraçada.” No filme, Dona Mocinha controla a família e vive às turras com o genro que negocia, às escondidas, suas propriedades. E tudo é visto pelos olhos do menino Domingos. O personagem de Paulo Betti, o genro, não poderia ser mais ‘rodriguiano’. Foi licença poética ou havia mesmo esse canalha na família?

“Qualquer um que for escritor, e usar terno branco, é obrigatoriamente leviano. Quanto ao canalha, não gostaria que o público pensasse assim do meu pai”, diz o diretor. “Que saída ele tinha? Se não fosse submisso era devorado por aquelas canibais, minha mãe e minha avó.” Como outras criações de Domingos, o processo de Infância começou no teatro. “A peça chamava-se Do Fundo do Lado Escuro e, antes de virar filme, foi montada três vezes, em épocas diferentes, pelos melhores grupos de teatro brasileiros. O texto tem um capítulo dedicado só para ele no livro de Sábato Magaldi. Quanto ao fato de o filme provir do teatro, não significa que ele seja teatral, muito menos que ele seja chato por ter palavras demais. ‘Uma imagem vale mil palavras.’ É interessante a observação, porém antiga. A palavra, mesmo excessiva, já foi liberada pelo cinema desde Ingmar Bergman, senão antes. E Abbas Kiarostami. É ao contrário. Todos os filmes deviam ser antes peças teatrais, na medida do possível, para que fossem mais agudamente estudados os personagens.”

Poucos diretores conseguem manter a regularidade e a ‘autoralidade’ de seu cinema, como Domingos. O fato de fazer filmes baratos, com amigos, ajuda bastante, não? “Não é que ajude, viabiliza. Amigos são sempre bons no trabalho da criação, seja que campo for. No filme barato é possível, com mais facilidade, afastar aquele produtor chato, são todos eles, gente que cismou com essa besteira de que cinema é indústria. Claro que é, porém, secundariamente, principalmente um instrumento de educação, moral e ética, sendo esta sua função principal. Imprescindível à sanidade geral. As duas escolas de cinema que formaram minha geração, a nouvelle vague e, principalmente, o neorrealismo, nunca tiveram orçamentos altos. Dinheiro atrapalha. Mas esse é um assunto longo que mereceria uma garrafa de vinho.” 

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