Domingo na Mostra: Documentários

O Quarto do Filho, dirigido e interpretado por Nanni Moretti será não só o representante italiano no Oscar 2002 como poderá ser um dos cinco finalistas à estatueta dourada da Academia de Hollywood. É um dos imperdíveis da Mostra BR de Cinemaque movimenta São Paulo neste fim de semana. Os documerntários também podem ser uma boa pedida. Promessas trata do conflito no Oriente Médio e Janela da Alma´discute a visão. Foi um dos filmes que provocaram maior impacto no Festival do Rio BR 2001. Hoje é o dia de os paulistanos confirmarem o alvoroço que cercou a exibição de Promessas. O documentário de B.Z. Goldberg passa no fim da tarde (18h10) na Sala UOL. Mais cedo, também à tarde (13h30), o Unibanco Arteplex mostra outro documentário imperdível: Janela da Alma, de João Henrique Jardim e Walter Carvalho. Grandes autores de documentários, entre eles os brasileiros Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, acreditam que o documentário só é grande se for autoral. Goldberg também acredita na premissa. Americano que passou a infância em Israel, ele se propôs a investigar o conflito do Oriente Médio sob a ótica infantil. Queria saber de que forma (ou até que ponto) as crianças assumem os postulados ideológicos de seus pais. E também queria tecer um retrato ao mesmo tempo humano e realista da situação numa das regiões mais explosivas do mundo. No Rio, Promessas foi exibido num ato ecumênico que reuniu representantes da Igreja Católica, do judaísmo, do budismo e do candomblé. Sob o impacto do ataque do terror nos EUA e a ameaça, afinal concretizada, de uma represália americana no Afeganistão, os organizadores queriam fazer do seu gesto uma tomada de conasciência em defesa da paz mundial. Não foi um projeto fácil de concretizar. Consumiu seis anos da vida do diretor. Foi difícil conseguir o dinheiro, selecionar as crianças e, priuncipalmente, montar o documentário, de forma a dar-lhe a intensidade desejada pelo autor. Ele entrevistou cerca de cem crianças. Queria que representassem as principais forças em conflito: selecionou um ortodoxo, um liberal, alguém que vive num campo de refugiados, outro que tem o pai na prisão. O mais impressionante do filme é mostrar que essas crianças não apenas reproduzem a retórica de seus pais, mas possuem opiniões fortes, que expõem sem reservas para a câmera. Um dos momentos mais marcantes é quando um dos entrevistados diz que, no Oriente Médio, todo mundo tem histórias de amigos mortos por extremistas para contar. O que as crianças dizem fortalece o desejo do diretor de contribuir para o entendimento do que ocorre na região. Aliás, não só na região, pois tem desdobramentos que atingem o mundo todo. Janela da Alma é outra coisa. Um filme que investiga e discute a questão da cegueira e do olhar. A dupla de cineastas - Walter Carvalho é o grande fotógrafo dos filmes de Walter Salles e de Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho - parte de uma afirmação de Santo Agostinho, segundo a qual a visão é o mais espiritual dos sentidos. Colhem depoimentos de pessoas - artistas, políticos, simples anônimos - afetadas pela perda da visão ou pelo decréscimo da capacidade de ver o mundo. Um dos melhores depoimentos é o do escritor português José Saramago, autor de Ensaio sobre a Cegueira. Mas o mais emocionante é o de um homem que perdeu a visão aos 17 anos. Articulando emoção e reflexão, os diretores não só discutem a função do olhar para as pessoas como mostram que, às vezes, quem perdeu a visão consegue falar melhor sobre ele, ajudando a entender o mundo.

Agencia Estado,

21 de outubro de 2001 | 09h04

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