"Dominação" marca estréia de Kaminski

Janusz Kaminski é cria de Steven Spielberg no cinema americano. Ganhou o Oscar de fotografia por A Lista de Schindler e deve dirigir Inteligência Artificial, o projeto de ficção científica que Stanley Kubrick deixou inacabado (e Steven Spielberg produzirá). Kaminski é polonês. Percebe-se - basta ver a estréia dele na direção, com o thriller sobrenatural "Dominação", a partir desta sexta-feira.Como bom polonês, Kaminski deve ter visto e revisto toda a obra de Andrzej Wajda, o maior cineasta do país, homenageado com um Oscar especial de carreira, em março. Wajda realizou grandes filmes políticos. A obra-prima dele é um filme do começo dos anos 60. Cinzas e Diamantes conta a história de Maciek, interpretado por Zbigniew Cibulski, o James Dean da Polônia, na época. No quadro polonês do pós-guerra, em que os comunistas rumam para o poder, Maciek é um herói da resistência que deve matar um dirigente operário. Na cena mais famosa do filme, ele entra numa igreja em ruínas. A célebre imagem do Cristo pendurado de cabeça para baixo expressa a inversão de valores num mundo em transformação.Winona Ryder - Kaminski lembrou-se disso ao realizar Dominação. Como thriller sobrenatural, é decepcionante. Não assusta e tem um fim muito abrupto. Se a chave do filme é o esforço da personagem de Winona Ryder para impedir que Ben Chaplin se transforme no anti-Cristo, iniciando a era do mal chamada de Dominação, esperava-se que o Diabo se esforçasse mais um pouco para proteger seu filho feito homem. A facilidade com que a trama se resolve é obra da falta de imaginação de roteiristas preguiçosos.Há uma ou outra cena interessante. Winona no banheiro enfrentando o assassino que avança para ela de faca na mão. É real, é alucinação? O curioso da cena é que ela propõe um efeito de simetria com outra que ocorrerá mais tarde e, aí, com um resultado, digamos, inesperado. A idéia do filme é a mesma explorada por outro polonês genial - no tempo em que o cineasta Roman Polanski podia ser considerado gênio. Em O Bebê de Rosemary, o Diabo dorme com a personagem de Mia Farrow para nela depositar a semente do mal, da qual surgirá o anti-cristo. O filme de Polanski trata do embate entre o instinto e a cultura repressora e termina com a pobre Mia rendendo-se à evidência de que o filho pode ser do Diabo, mas também é dela.O reino do mal, a teia de conspiração que envolve a tudo e todos. Mia descobre que os vizinhos inofensivos não são tão inofensivos assim. À mesma descoberta chegam aqui Winona e Chaplin e é por isso que Kaminski pode citar Wajda numa das raras cenas de impacto do filme. Chaplin, desesperado, entra na igreja. Ajoelha-se diante da estátua do Cristo. Ocorre algo - um poderoso símbolo visual emprestado a Wajda. Não salva o filme, mas é curioso demais para passar em branco.

Agencia Estado,

28 de dezembro de 2000 | 18h42

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