Dominação dá tom de "As Três Marias"

Começa ao redor de uma mesa, com amãe e suas três filhas reunidas para o que parece ser umarefeição. Só parece, porque embora existam pratos e copos e aspersonagens façam gestos de quem come e bebe, não há nada nessesrecipientes. Só isso já dá uma idéia do que Aluizio Abranchespretende em seu novo filme que estréia nesta sexta-feira, em São Paulo.As Três Marias decola exatamente da mesma maneira queLavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, e AbrilDespedaçado, de Walter Salles. Nos outros dois filmes, os diretores mostram patriarcasexercendo seu poder sobre a família, principalmente os filhos.No filme de Abranches, é uma matriarca, interpretada por MarietaSevero, mas a dominação é a mesma. Esses três filmes utilizam amesa e as relações familiares como metáforas de dominação epoder para falar sobre o Brasil na atualidade. Nenhum dessesdiretores sabia o que o outro estava fazendo, ninguém imitouninguém, mas é curioso que cineastas de formações etemperamentos tão diversos recorram à mesma situação paradesvendar o Brasil de Fernando Henrique Cardoso. Abranches foi o diretor de Um Copo de Cólera,adaptado do livro de Raduan Nassar, o mesmo autor de LavouraArcaica. Ele cultiva um tipo de cinema antinaturalista, querecorre à teatralidade das interpretações e das situações paraveicular o que pretende dizer. É um tipo de cinema assumidamenteartificial, mas isso não quer dizer que não tenha compromissoscom a realidade. Às vezes, o artifício é o melhor atalho paraser verdadeiro. Há um debate muito forte no cinema brasileiro hoje. Quemo começou foi a pesquisadora Ivana Bentes, a primeira a discutiro que ela chamou de cosmetização da estética da fome do cinemanovo, que estaria sendo praticada pelos novos diretores vindosda publicidade. As Três Marias seria uma das obrasemblemáticas dessa tendência. Não é, pelo simples motivo de queesse estilo adotado para narrar a história é o mais adequadopara o tipo de reflexão sobre o mundo e o próprio cinemapretendido pelo diretor. A mais cosmética da miséria namalsucedida cena da praça em O Príncipe, de Ugo Giorgetti,mas parece não ser de muito bom tom tocar no assunto. Numa entrevista, Abranches definiu As Três Mariascomo uma fábula. A idéia surgiu de um argumento que HeitorDhalia e Wilson Freire lhe propuseram. Na idéia original, atrama de vingança de As Três Marias, que se desenrola apartir do momento em que a mãe cobra as três filhas oassassinato dos matadores de seu marido e dos irmãos dela, eranarrada em forma de cordel, com diálogos ritmados como versos.Diz o diretor: "embora a ação pareça desenrolar-se naatualidade, meu filme não tem nenhum compromisso de tempo nemmesmo de espaço. O próprio final aberto, tenho a impressão quereforça essa estrutura de fábula, que era o que me atraía." Marieta Severo, cooptada para fazer a matriarca dafamília Capadocio, revela que ficou impactada pela originalidadeda trama desde que o roteiro lhe foi apresentado pela primeiravez pelo diretor. Mas ela discorda dessa idéia da fábula: achaque As Três Marias tem muito mais a ver com a representaçãoda tragédia grega. Julia Lemmertz, trabalhando pela segunda vezcom o diretor, após Um Copo de Cólera, assinala que AsTrês Marias não é um filme realista. Lembra que Um Copo deCólera também não era: "A ação pode ser o interior dePernambuco ou qualquer outro lugar do mundo, não importa.Aluizio adora quebrar o convencionalismo." É um filme difícil, nem todo mundo vai gostar, mas essahistória de vingança confirma que o diretor de Um Copo deCólera tem algo a dizer não apenas sobre o Brasil, mas sobre opróprio cinema. Abranches está fugindo a uma certa padronizaçãoestética, baseada na banalidade, que acomete o cinema brasileiroatual. É ousado. O público brasileiro pode até discutir essefilme, mas também tem de começar a dar-se conta da originalidadedesse diretor.Serviço - As Três Marias. Drama. Direção de Aluizio Abranches.Br/2002. Duração: 90 min. Censura: 16 anos

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.