"Dométicas" consegue ser divertido

E não é que o filme é divertido? Podia-se esperar o pior de Domésticas, o filme de Fernando Meirelles e Nando Olival que estréia nessa sexta-feira. Baseado na peça de Renata Melo, o filme poderia seguir a trilha do original, possibilitando críticas do tipo É o tipo do espetáculo feito para os patrões se divertirem à custa de suas domésticas. Foi justamente isso que Meirelles e Nando tentaram evitar. Fizeram um filme que não vai revolucionar o cinema brasileiro, mas é simpático e comunicativo. Não ofende as domésticas. Elas próprias, convidadas pela reportagem para assistir a uma projeção do filme, gostaram do jeito como a dupla de diretores as retrata na tela.Meirelles e Nando são sócios na O2. Antes de ser uma agência de publicidade, era a empresa que fazia o programa Olhar Eletrônico, que projetou Marcelo Tas na TV. A O2 entrou na publicidade e Nando diz que foi um atalho para o cinema. Ele não concorda com a crítica que muitas vezes é feita aos publicitários que aderem ao cinema. Ugo Giorgetti nunca sofreu o estigma, mas Andrucha Waddington penou com Gêmeas antes de conseguir se impor com Eu Tu Eles, que só os débeis ainda se atreveriam a contestar. O cinema que vem da publicidade maquia a realidade. Sim, é verdade, quando se pensa em Até Que a Vida nos Separe, de Zaragoza. Mas não é uma regra válida para todos os diretores que vieram do comercial. Não vale para Domésticas.Nando conta que a O2 tem um perfil diferenciado das outras agências. Quem procura os dois - a ele e Meirelles - é porque não está a fim do produto bonitinho que a maioria das agências oferece. Consagrados no Festival Internacional do Filme Publicitário de Cannes e também no curta - E no Meio Passa um Trem e Um Dia e logo depois um Outro foram premiados nos festivais de Gramado e Brasília. Clios, Kikitos e Candangos não são exatamente novidades para os dois. Domésticas vai agora para o Festival do Recife. Nando não tem muita expectativa de prêmios, mas gostaria muito que as atrizes de Domésticas fossem premiadas, em grupo ou individualmente. São maravilhosas, diz.Consagrados no curta, Meirelles e ele buscavam um tema para estrear no longa. Um dia, Meirelles foi ver a peça de Renata. Achou que dava filme. Levou Nando e um grupo de amigos. Todos acharam que tinha o perfil do que estavam querendo - um projeto barato, com o pé na realidade e com possibilidades muito boas de aproveitamento do elenco original. O filme, inicialmente orçado em R$ 600 mil, terminou sendo feito por R$ 1,2 milhão. Eles rodaram durante três semanas, há um ano e meio. Ficaram um ano montando, vendo os buracos da narrativa, a melhor maneira de contextualizar e aprofundar as personagens. O roteiro foi refeito. Rodaram mais uma semana.Os diálogos são todos autênticos, tirados das entrevistas que Renata fez com 200 domésticas para escrever a peça. O cuidado de Meirelles e Nando foi criar um grupo de cinco personagens que pudessem expressar o material colhido por Renata. Não se propuseram a uma abordagem sociológica. Queriam fazer um filme popular. Conseguiram. Meirelles prepara agora o grande salto para um cinema mais denso e impactante. Vai fazer Cidade de Deus, baseado no livro de Paulo Lins. Esse vai ser forte, garante Nando. Talvez ajude a mudar o conceito dos que acreditam que o cinema vindo da publicidade só pode ser falso.Domésticas - O Filme. Comédia. Direção de Fernando Meirelles e Nando Olival. Br/2001. Duração: 85 minutos. 14 anos

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