"Domésticas" é premiado em Paris

Uma doméstica potiguar radicada naFrança arrebatou a cena do Festival de Cinema Brasileiro deParis no encerramento deste, terça-feira à noite, ao receber, comorepresentante dos diretores, o prêmio do "Júri Jovem Público"concedido ao filme Domésticas. O outro prêmio, o do Público,foi atribuído a Janela da Alma e entregue a um de seusdiretores, João Jardim, que justificou então a ausência de seuparceiro na obra, Walter Carvalho. "Sou doméstica em Paris, mas tenho meus direitosrespeitados, meu salário é decente, sou bem tratada pelos meuspatrões, diplomatas franceses, e fui agora promovida agovernanta." Foi a confissão surpreendente, graciosa eovacionada de Mércia de Gois ao subir ao palco, por iniciativadas organizadoras do evento, Katia Adler e Beatriz Caiado,diante do público do Cinema Arlequin (superlotado), pararepresentar os diretores de Domésticas, Fernando Meirelles eNando Olival, que não puderam estar em Paris. Com o Troféu do Mérito e Honra do festival foidistinguida Elenora de Martino Salim, diretora de projetosculturais da BR/Petrobras, que é, hoje, o principal suportefinanceiro da nova etapa criativa do cinema nacional. Para o prêmio do público, na base do voto secreto dentrode uma escala de menções indo de "muito ruim" a "muito bom", os4 mil votantes (do total de 6 mil espectadores do festival)conferiram o segundo lugar a Domésticas e o terceiro a OInvasor, de Beto Brant. Falando por seus colegas, o jurado franco-brasileiroMathias de Alencastro sintetizou para a reportagem as razões daescolha de Domésticas para o prêmio jovem: "Sem adotarmoscritérios especiais ou precisos, elegemos, afinal, Domésticasporque ele retrata um aspecto do Brasil desconhecido dosfranceses de todos as idades e o faz de um jeito alegre,espirituoso, numa linguagem livre dos chavões e do tomsentencioso de denúncia social, denúncia sem dúvida presente enecessária, mas que fica subjacente e não compromete a graça doespetáculo." Exibido nos dois últimos dias do festival, O Invasorcausou forte impacto no público pela combinação de violência,corrupção e impunidade que o filme atribui a certos segmentos dapirâmide social brasileira. Diante da perplexidade demonstrada pelos espectadoresnos debates posteriores às projeções, o diretor do filme, BetoBrant, depois de ponderar que se tratava de uma ficção, e não deum documentário, esclareceu: "A violência e a impunidade nãoestão generalizadas no Brasil, não afetam o conjunto de nossasociedade. O filme não denuncia nem sugere algo nesse sentido.Ao contrário do que ocorre em outros países latino-americanos,asiáticos e africanos, o Estado no Brasil controla a situação,os poderes constituídos asseguram o estado de direito, não háruptura institucional." E concluiu: "O filme não avança em nenhuma conclusãomoral, limita-se a colocar um problema que se manifesta parcialou fragmentariamente na estrutura social e sobre o qual asociedade brasileira em seu conjunto deveria se posicionar."

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