Peter Mountain/Netflix
Peter Mountain/Netflix

'Dois Papas', melhor filme de Fernando Meirelles, chega à Netflix

Com quatro indicações para o Globo de Ouro, obra estreia na sexta, 20, no canal de streaming; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2019 | 06h00

Quando se encontrou com a reportagem do Estado, há duas semanas, num dos hotéis mais seletos da capital argentina, Jonathan Pryce podia até esperar, mas ainda não havia sido indicado para o Globo de Ouro, na categoria de melhor ator de drama, por sua interpretação como o papa Francisco em Dois Papas, de Fernando Meirelles. A produção da Netflix recebeu várias indicações, incluindo melhor coadjuvante, para Anthony Hopkins, e melhor filme. Meirelles não foi indicado como diretor, mas o filme é o melhor que já fez, superando o celebrado Cidade de Deus. Ao ouvir a avaliação do repórter, Meirelles comemorou. “Você está me alforriando. Tudo o que faço é sempre ofuscado por Cidade de Deus.”

Aleluia! Dois Papas já estreou no cinema, em salas selecionadas. Na sexta, 20, chega à Netflix. Meirelles avalia: “É a situação ideal. Pudemos levar o filme a festivais, estreamos no cinema e agora, no streaming, teremos a possibilidade de atingir um público muito maior. E tudo isso com recursos e liberdade de criação”. 

Pryce diz que não é religioso, mas embarcou no projeto por conta da grandeza do personagem. “Francisco pode ser discutido na Argentina, mas rapidamente se tornou uma das lideranças mais importantes do mundo. Admiro sua agenda humana e política - a defesa dos excluídos, a crítica à concentração da riqueza e da degradação do meio ambiente pelas grandes economias.”

Como foi se preparar para o papel? “Por se tratar de uma figura real e conhecida, tomei certas precauções, analisando e emulando certos gestos. Mas é curioso - numa cena, quando me despeço de Bento (Hopkins) e o plano é aberto, Fernando ficou entusiasmado e me cumprimentou, dizendo que eu estava caminhando exatamente como ele. Tenho de admitir, talvez para decepção de Fernando, que se trata de mera coincidência. Caminhamos igual, essa é a verdade”, afirma Jonathan Pryce. 

Meirelles havia comentado com o repórter que Hopkins, ao aceitar o papel de Bento XVI, lhe havia pedido que não fizesse nenhuma mudança no roteiro de Anthony McCarten, embora ainda faltassem de quatro a cinco meses para iniciar a filmagem. Hopkins prometeu dissecar o roteiro e chegar ao set com cada vírgula e entonação preparadas. Pryce sorri. “Cada ator tem seu método. Tony (Hopkins) é obsessivo, no melhor sentido do termo. Em termos musicais, diria que é um virtuose que toca com a orquestra, seguindo a partitura e servindo-a com seu perfeccionismo. Eu sou mais jazzista. Gosto de improvisar, de interagir. Cada plano termina saindo ligeiramente diferente, porque a energia muda muito no set.”

Lá atrás, em 1995, em Cannes, Pryce encontrara-se com o repórter por outro de seus melhores filmes, hoje um tanto esquecido, Carrington, de Christopher Hampton. A cinebiografia da pintora Dora Carrington, interpretada por Emma Thompson. Uma mulher adiante do seu tempo, que se vestia como homem e manteve, a vida toda, uma relação afetiva muito forte com o escritor Lytton Strachey, um homossexual assumido (é o personagem de Pryce). “Foi um filme muito importante para mim. Já havia feito, há uma década, Brazil (de Terry Gilliam) que, como você sabe, virou cult, mas algo se passou em Carrington. Chris (Hampton) é muito talentoso, mas infelizmente as pessoas só pensam nele como roteirista de Ligações Perigosas (de Stephen Frears).” 

Todos - Meirelles, McCarten e os dois atores que se revezam como Francisco (Pryce) e Jorge Bergoglio, quando ele era apenas padre (Juan Gervasio Minujín) - destacam a mesma coisa. Como padre, na Argentina, mesmo tendo abraçado causas populares, Bergoglio foi sempre controverso por suas atitudes durante a ditadura militar. “Não há tema mais delicado para nós. As violações de direitos humanos, os crimes da ditadura não têm perdão”, reflete Minujín. “Deram origem a um trauma na consciência argentina.” Nesse sentido, Bergoglio carregou a culpa por haver transigido com os militares. “É um personagem trágico. Dizemos dele que era o padre, o cardeal que nunca ria. Por isso foi uma surpresa tão grande quando ele surgiu sorrindo, naquela sacada, investido como papa Francisco. Era outro homem. Faz todo sentido sermos dois atores no papel, um pouco pela extensão de tempo que o filme cobre, mas também por essa mudança visceral de Bergoglio para Francisco.”

O filme é sobre o encontro de dois homens num momento crítico da Igreja. Bento assume o papado, mas sente que a Igreja precisa mudar, e Bergoglio é o homem certo para isso. Mas para que o primeiro renuncie, abrindo caminho para a investidura do segundo, é preciso muito diálogo. Entendimento. Ambos precisarão expiar suas culpas - a de Bento, ter se omitido, diante de denúncias de pedofilia, para preservar a instituição. 

Nos anos 1960, Otto Preminger fez um grande filme político sobre a Igreja Católica como instituição, O Cardeal, com Tom Tryon. Mais de meio século depois, Meirelles dá sua contribuição, e crava outro marco. 

Meirelles e a importância de humanizar os pontífices

Alguns diretores brasileiros atingiram um patamar internacional de reconhecimento que faz deles figuras cosmopolitas. Karim Aïnouz tem conseguido viabilizar parcerias europeias, José Padilha projetou-se além-fronteiras com Narcos. Fernando Meirelles é o mais internacional. Cidade de Deus, Jardineiro Fiel, Ensaio Sobre a Cegueira, agora Dois Papas.

Desde o show de abertura da Olimpíada do Rio, e até antes disso, Meirelles foi sempre preocupado com a questão do meio ambiente, mas agora se tornou militante. Não vê futuro sem a solução do aquecimento global. Questões como a terra, a floresta, a água o apaixonam. A ideia de dirigir Dois Papas o apanhou de cara. “Ao ler o roteiro do Anthony (McCarten), adaptado de sua peça, achei o diálogo muito vivo, muito interessante. Coisas sérias, relevantes.” Mas ele logo se deu conta de que dois homens conversando sobre Igreja e religião poderiam resultar num filme muito chato. “O desafio era transformar Dois Papas numa experiência cinemática.”

Após ler muito aquele roteiro, Meirelles encontrou seu viés. “Mais do que o diálogo entre um papa e um cardeal, percebi que o foco deveria ser no diálogo entre dois homens que discordam em quase tudo, mas buscam um entendimento. Uma coisa muito íntima e pessoal, filmada por uma câmera muito próxima. E ambos se provocam, se fazem piadas. A ideia é que, humanizando os dois pontífices, a gente tem uma percepção mais clara do que está em jogo.”

Justamente o jogo, o futebol. “Bergoglio sempre amou futebol, e isso já estava muito forte no roteiro do Tony. O futebol pode ser uma paixão. Um papa torcedor fica certamente mais próximo das pessoas.” Para se entender, os dois papas precisam se perdoar. Todo o filme converge para a cena das confissões. Meirelles não pôde filmar no Vaticano. Reconstituiu a Capela Sistina. “Nosso diretor de arte é genial. É uma grande equipe, e todo mundo trabalhou com entrega.” 

Entrevista: Anthony McCarten, roteirista

Como surgiu seu interesse por esse encontro entre dois papas?

A situação, em si, já era muito interessante. Dois papas vivos, essa era uma situação que não ocorria havia 500 anos. Dois homens que discordavam em quase tudo, e ambos considerados infalíveis. Desde o início me pareceu que essa era uma fábula sobre entendimento. Num mundo cada vez mais intolerante, é algo muito interessante, não?

Bergoglio está querendo renunciar ao título de cardeal, mas não sabe que Bento também está planejando se afastar de suas funções e o avalia para ser seu sucessor. Dramaturgicamente, é muito forte...

... E deu origem a uma peça que foi representada com sucesso. A ideia de vertê-la para o cinema foi estimulante porque implicava ampliar o diálogo original. Muita coisa era narrada, e o filme tem mais colorido, mais cenários, mais grandiosidade. O desafio, a ser enfrentado com o diretor, era ampliar sem perder a escala. O tom do filme tinha de permanecer intimista.

O futebol?

Sou da Nova Zelândia, o papa é argentino. O futebol é uma paixão. Como jogo, é confronto, mas também é habilidade, uma outra forma de diálogo, e de persuasão. Com a bola.

Meirelles tem uma solução de gênio, cortando o som na cena da confissão de Bento...

... Ah, não, a ideia foi minha. A gente sabe do que ele está falando (pedofilia), mas me parecia muito difícil colocar palavras de arrependimento na boca de um papa. 

 

 

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