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Dois olhares sobre 'O Lobo de Wall-Street'

Luiz Zanin Oricchio e Luiz Carlos Merten, críticos do Caderno 2, expôem suas visões sobre o filme de Scorsese

Luiz Zanin Oricchio e Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2014 | 19h29

Os críticos de cinema do Caderno 2, Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio, têm visões próprias sobre o filme O Lobo de Wall Street, que concorre a cinco Oscars e estreia nesta sexta-feira, 24, no País. Confira a seguir as opiniões de cada um:

Gostei

Luiz Zanin Oricchio

O Lobo de Wall Street, essa comédia farsesca sobre a ambição, tem como protagonista um personagem execrável, o especulador Jordan Belfort. A figura é péssima; o filme é ótimo.

Belfort, personagem real interpretado por Leonardo DiCaprio, escreveu suas memórias. Conta suas aventuras no mercado financeiro, de como enriqueceu com fraudes contra pequenos investidores e, depois de apanhado, passou a colaborar com o FBI para melhorar sua situação na justiça. A história é patética.

Belfort é um crápula, que tem sua trajetória esmiuçada em três horas de filme brilhantemente dirigido por Martin Scorsese. O fato de Scorsese, mestre maduro, ter voltado ao vigor de seus grandes trabalhos como Os Bons Companheiros, Touro Indomável, Cassino ou Os Infiltrados, levantou a suspeita, meio ingênua, de simpatia em relação ao personagem. 

Ora, não poderia haver retrato mais devastador de um patife do que este traçado de Jordan Belfort por Scorsese através de DiCaprio. Cínico, amoral, drogado, alguém para quem seu semelhante, homem ou mulher, não vale um tostão furado, Belfort ostenta também aquele charme nada discreto dos canalhas absolutos. Olhamos para ele com certa curiosidade e (por que não? ) algum fascínio. Ou alguém poderia negar que, na complexidade da mente humana, o mal também pode ter o seu charme?

Como faz filmes para adultos, Scorsese não esconde essa ambivalência. A começar pelo fato de a história ser narrada pelo próprio protagonista, em primeira pessoa, e muitas vezes olhando diretamente para a câmera. Como se ele reafirmasse, a cada um de nós, o que sua trajetória tem de interessante. Além disso, Scorsese faz a história boiar o tempo todo entre o trágico e o cômico. Belfort é torpe a ponto de promover no escritório um concurso de arremesso de anões ou pagar US$ 10 mil a uma funcionária para que ela permita ter a cabeça raspada em público. Moral da história: o dinheiro compra tudo.

A essas passagens repulsivas se contrapõem cenas engraçadas, como aquela em que Belfort está tão chapado que a única maneira de descer uma escada para pegar a sua Ferrari branca é jogar-se degraus abaixo. Também são hilários os diálogos entrecortados entre o especulador e o banqueiro suíço (Jean Dujardin, de O Artista) que vai colocar seu dinheiro sujo numa higiênica conta numerada.

Enfim, o que se tem em O Lobo de Wall Street é um retrato anatômico do mundo da alta finança e do desdém pelos estragos causados pela busca desenfreada de dinheiro fácil. Desde a crise mundial de 2008, provocada pela especulação, esse tipo de obra vem encontrando espaço no mercado cinematográfico. Filmes de ficção como Margin Call ou O Capital, e documentários como Trabalho Interno buscam refletir sobre esse mundo em que o mercado financeiro se descolou da economia real e multiplica seus estragos (estes sim, bem reais).

Mas nunca, até agora, o cinema tinha ido tão longe ao retratar esse mundo em sua intimidade. É chocante? É. Só alguém criado em Little Italy, acostumado a ver o que os homens podem fazer com seus semelhantes quando em busca do lucro fácil, poderia pintar um quadro de cores tão aberrantes. Mas perto da alcateia de Wall Street, os mafiosos de Os Bons Companheiros parecem até gente fina.

Na mais caridosa das hipóteses, Belfort seria uma excrescência, um subproduto doentio do sistema. A outra interpretação é que Belfort seria a expressão perfeita do sistema quando levado às últimas consequências. Tal é a mensagem subversiva de Scorsese, que o pensamento politicamente correto, escandalizado com a aparência dissoluta dessa história exemplar, não consegue enxergar.

 

Não gostei

Luiz Carlos Merten

Psicanálise elementar. Quando jovem, Martin Scorsese chegouA Fonte. Falando diretamente para a câmera, Leo DiCaprio, como Jordan Belfort, vai logo dizendo, na primeira cena, que sempre gostou de dinheiro. Vira vendedor de sonhos. Quer dizer – vende sonhos para otários, de quem toma o dinheiro. Forma uma gangue – uma nova versão de ‘os bons companheiros’. A única voz discordante nesta orgia – a primeira mulher – é logo descartada (numa boa cena).

O Lobo de Wall Street é quase um manual de todos os excessos que o dinheiro pode comprar. O filme possui uma estrutura peculiar – Scorsese trabalha com o clichê num grau quase inimaginável. Mas, em vez de tragédia, como as de outros de seus personagens, transforma a história de Jordan numa farsa. Parece interessante, só que o filme tem ‘problemas’. Não é sobre o poder do dinheiro. Se fosse, Jordan poderia ser uma excrescência ou uma vítima de si mesmo, e nesse caso talvez merecesse simpatia. Só doido para simpatizar com cara tão desagradável. O filme é sobre as estruturas mentais que os ‘loucos’, com fome de viver – como ele –, criam para se justificar. Scorsese não fez A Ilha do Medo, o quarto de seus cinco filmes com DiCaprio – o melhor, menos ruim?, é o terceiro, Os Infiltrados – por acaso. No limite, O Lobo é o reverso de um filme de John Ford. Em vez da grandeza dos derrotados, celebra a persistência dos vencedores sem ética.

Duas cenas são exemplares para expressar a morte da ideologia no mundo contemporâneo. A do policial, no trem, voltando para casa, e a de Jordan, de novo, perante uma plateia ávida. Lobos em potencial. O que Jordan fez foi o que todo mundo gostaria de ter coragem de fazer. A fila para repetir seus erros é imensa. Sociologia barata, travestida de grande arte. Apesar de cenas boas, O Lobo é repulsivo. Sexista, machista, vulgar. Por menos que os seus palavrões disparados por minuto, e as hookers que fazem sexo no escritório, muita comédia brasileira de sucesso foi crucificada. A diferença é que O Lobo, seria – é, para muita gente – ‘crítico’.

Dá para acreditar nisso? Márcio Fraccaroli, da Paris Filmes – que distribui O Lobo e a maioria das comédias que arrebentam na bilheteria – vê o novo Scorsese com a lógica do mercado. É o filme mais comercial da safra deste Oscar e, como tal, terá direito a lançamento com mais de 200 salas. É a lógica – lançamento massivo para forçar o público a ver, antes que as pessoas se deem conta de que as três horas do Lobo, por mais ágil que seja o filme, são redundantes. Aos três/quatro minutos, Jordan tem um acidente de helicóptero. Se ele morresse ali, o filme acabaria – nem haveria filme –, mas o essencial sobre ele e o seu estilo de vida já estaria todo dito.

Fraccaroli tem razão. É o filme mais comercial deste Oscar, o mais comercial desde A Última Tentação de Cristo, que Paulo Francis jurava que ele só fez (em 1988) porque, atolado em dívidas, precisava chamar atenção e criar um caso para escapar da insolvência. Um filme crítico? É muita cara de pau. Mas dá para rir. Isso, naturalmente, se você achar graça em Jonah Hill tirando o membro das calças e masturbando-se na festa até apanhar da mulher.

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