'Dois Dias, Uma Noite' reflete sobre o egoísmo e a solidariedade

Longa é dirigido pelos irmãos Dardenne

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2014 | 03h00

Em Dois Dias, Uma Noite, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne põem em jogo duas questões básicas - o egoísmo e a solidariedade na sociedade capitalista. Mas, mais uma vez, o tema central da dupla belga, núcleo de sua reflexão cinematográfica, tornada famosa desde Rosetta, é o emprego. 

Eles falam e pensam a partir da Bélgica, de uma das sociedades tidas como das mais perfeitas do mundo ocidental. Justa, sem as desigualdades abissais de outros países, gozando de garantias do Estado do Bem-Estar Social, mesmo assim a Bélgica pode se tornar palco de conflitos muito intensos, como no caso retratado pelo filme. 

A história é a de Sandra (Marion Cotillard), funcionária que vai ser demitida para que seus colegas recebam um bônus. Para reverter a situação, ela precisa convencer, um a um, a renunciar aos mil euros, em troca da manutenção de emprego da colega. Os dois dias e uma noite do título se referem ao fim de semana que ela terá para inverter uma primeira votação, favorável ao bônus e à demissão. 

A estratégia narrativa é bem montada. A solidariedade pode ser apenas uma palavra bonita, mas, no caso, ela tem um valor definido. Nem tão grande que se torne inegociável, nem tão pequeno que pareça desprezível. Todos aqueles empregados precisam dos mil euros, por um motivo ou por outro. Mas não passarão fome se os dispensarem. Há outros casos, como o do imigrante intimidado e que prefere votar com a maioria. Ou da mulher que vota pelo bônus por medo da reação do marido. 

A mesma estratégia apresenta riscos. O principal deles, a situação repetitiva de cada abordagem de Sandra aos colegas de trabalho. Algo como “eu sei que você precisa do dinheiro, mas é o meu emprego que está em jogo”. Por sorte, essa repetição acaba se desdobrando em situações muito diferentes conforme os interlocutores - da compreensão à agressão, passando pela dúvida. Por outro lado, a atriz Marion Cottillard é um instrumento de alta precisão, uma espécie de Stradivarius, capaz de colocar notas sutilmente destoantes mesmo nas passagens repetidas. A melodia (para continuar na metáfora) nunca é a mesma, embora pareça. 

Há, por fim, um dado adicional, e importante para efeitos narrativos. Sabe-se, lá pelas tantas, que Sandra teve uma grave depressão. Este emprego, além de representar o sustento da família, é também uma espécie de reinserção na sociedade e no mundo do trabalho. O que torna o posto ainda mais vital para ela. Por isso, ela se entope de antidepressivos, mas continua sua peregrinação implacável em busca de votos favoráveis. É comovente. Tocante, sem deixar de ser reflexivo. 

Primeiro, porque não exclui a responsabilidade pessoal. Cabe a cada um atender a seu interesse imediato ou sacrificá-lo por um motivo nada desprezível, a solidariedade a um companheiro de trabalho. Mas é importante notar que essa solidariedade, que seria dado obrigatório em tempos passados, se encontra corroída no presente. Torna-se objeto de dúvida. Em segundo lugar, porque embora focados no drama pessoal, nunca deixamos de pensar: “mas que empresa é essa que submete seus funcionários a tal dilema moral?” E entendemos, por fim, que, alegoricamente, essa empresa representa a sociedade em seu conjunto. Nada menos.

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