Dogma Feijoada leva curta a festival na África

O documento já fez aniversário de um ano. Agora, a obra que foi submetida a seus itens está terminada e prestes a estrear dentro da mostra competitiva de um festival internacional. Está se falando do manifesto Gênese do Cinema Brasileiro ou Dogma Feijoada e de seu filme inaugural, o curta-metragem Distraída para a Morte, ambos concebidos pelo cineasta Jeferson De, diretor de Paixão e Gênesis 22. O Dogma Feijoada, manifesto de sete itens que sintetizam a discussão acerca da imagem do negro no cinema brasileiro, é fruto dos estudos feitos pelo cineasta em 1997 e 1998, financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Jeferson desenvolveu a pesquisa Diretores Cinematográficos Negros Brasileiros.A reportagem assistiu, em primeira mão, ao filme que representará o Brasil no Festival Panafricano de Cinema de Ouagadougou (Fespaco). O tradicional festival cinematográfico negro, cuja próxima edição terá início no dia 24, é feito a cada dois anos desde 1969. Ouagadougou é a capital de Burkina Faso, país localizado na região oeste da África. Distraída para a Morte concorre ao Prêmio Diáspora contra dez títulos norte-americanos e um da Martinica."O primeiro ponto é que a participação no festival prova que há negros fazendo filmes no Brasil. O outro é que, uma vez lá, poderei estar em contato com outros realizadores e saber mais dos modos de produção de seus respectivos países. Quero saber como os norte-americanos conseguem inscrever dez títulos, por exemplo", diz Jeferson, lembrando que sua visita será pautada pela divulgação de projetos dele e de outros integrantes do Dogma Feijoada. "Não sou líder de nada, é uma palavra desgastada, mas pode-se dizer que estou, quando muito, na vanguarda do movimento."Além da questão mercadológica embutida na estréia do filme em um festival africano, há o apelo emocional. "É como montar uma barraca de camelô na 5.ª Avenida´´, compara. "Melhor do que isso, só se o filme estreasse no bairro em que nasci, lá em Taubaté." Segundo ele, o idioma será o grande diferencial, tanto no Brasil quanto nos outros festivais internacionais aos quais a fita será enviada. "As pessoas estão acostumadas a ver o Wesley Snipes e o Denzel Washington falando inglês nos filmes. De cara, o português vai causar impacto. Os estrangeiros vão perguntar que língua é essa.´´Mas, apesar das potencialidades mercadológicas e emocionais, o cotidiano trágico de três jovens negros retratado em Distraída para a Morte trilhou um caminho errático até chegar ao resultado final. O roteiro foi vencedor do Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura. Com parte dos R$ 30 mil do prêmio, o diretor foi à procura de parceiros que o auxiliassem no término da empreitada. Procurou, sem sucesso, estabelecer parcerias com entidades ligadas ao movimento negro, como a Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura; jogadores de futebol, como o volante Vampeta; e pagodeiros, como o ex-líder do Negritude Júnior, Netinho. "Não tive sequer um retorno. Quando o Spike Lee estava filmando Malcom X e estourou o orçamento, ele passou a mão no telefone e pediu dinheiro ao Michael Jordan. Esse tipo de envolvimento deveria acontecer aqui no Brasil também. É uma pena, pois eu queria tê-los como aliados.´´A finalização só foi possível com a entrada da gravadora Trama no processo - no caso, a Trama Filmes, que debuta no segmento audiovisual em associação com a Cinematográfica Superfilmes e com a Daniel Solá Santiago Produções. Além disso, a soma de esforços já propiciou o surgimento de outras duas produções que levarão o selo do Dogma Feijoada: os videoclipes das músicas Segue a Rima, do rapper Xis, e Pra Você Lembrar, de Max de Castro e remix do DJ Patife, este dirigido em parceria com Gustavo Abreu.Por causa da união com a Trama, Jeferson prevê ainda o lançamento em CD da trilha sonora (assinada por Max de Castro) de Distraída para a Morte, título que tomou emprestado de uma da peças do repertório do cantor e compositor pernambucano Otto. "Se com a imagem já se conquista certas coisas, imagine com a música aliada à ela. E tem de ter um direcionamento pop, com rap e linguagem urbana, porque de filme-cabeça estrelado por negro a cinemateca brasileira está cheia."Embate - Da mesma forma que as propostas do Dogma Feijoada foram recebidas com entusiasmo por cineastas veteranos como Cacá Diegues, outros as classificam de sectárias e racistas. É o caso do diretor Sylvio Back. Jeferson e Back estiveram em outubro no festival Segundos Encontros de Cinema de Cabo Verde, que nessa edição tinha como tema O Negro na Tela e homenageava a atriz e cantora Zezé Motta.Num dos seminários do encontro, os dois discordaram a ponto de o mediador cabo-verdiano pedir calma aos realizadores. "Ele falou uma série de besteiras, me chamou de racista e disse entender a realidade do negro por ter feito Cruz e Souza, o Poeta do Desterro. Não agüentei e foi um grande bate-boca.´´Recife - Polêmicas à parte, além do festival africano, Jeferson volta a atenção ao 5.º Festival de Cinema do Recife, de 24 a 30 de abril. O evento destacará a miscigenação racial, sobretudo o tão discutido papel do negro na cinematografia brasileira. O tema geral da edição será Cinema Brasileiro: Uma Arte de Raça. Os atores Milton Gonçalves e Ruth de Souza, que faz uma emocionante participação em Distraída para a Morte, serão os homenageados. "Exibir o filme na terra de Otto e Nação Zumbi, com a Ruth sendo homenageada, vai ser uma experiência incrível", prevê o diretor.O elenco do filme é composto também por Cinthya Raquel, Robson Nunes e Fabinho Nepo. A lista de participações especiais congrega desde o ator João Acaiabe, o DJ Eugênio Lima, o rapper Xis, os músicos Max de Castro, Otto e João Marcelo Bôscoli, até o próprio diretor do filme, encarnando um MC. "Escrevi a letra da música inicial e minha pontinha tem a ver com o caráter político de Distraída para a Morte.´´

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