Documentários denunciam devastação das florestas

O cineasta Sérgio Bernardes quer emocionar e fazer refletir sobre a devastação das florestas brasileiras e suas conseqüências nas cidades. O meio encontrado foi a instalação Nósenãonós 3 Telas, que inaugura nesta segunda-feira no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Como diz o título, são três documentários de 25 minutos cada um, projetados simultaneamente em telões, com cenas da Amazônia e do Rio de Janeiro, editadas com trilha sonora de Guilherme Vaz.São imagens fortes, misturando as comunidades do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, com a apreensão de mogno no sul do Pará, um banquete na favela com a paisagem do Monte Roraima. "O Brasil tem máfias entrelaçadas e o que ocorre numa comunidade indígena tem conseqüências na periferia das cidades do Sudeste", diz Bernardes, filho do arquiteto com o mesmo nome, que morreu, no ano passado e o único da família que não seguiu a profissão."Oitenta por cento da população brasileira hoje vive em cidades não planejadas, sequer pensadas. As pessoas se aglomeram nas favelas, verdadeiros oceanos de pobreza no meio urbano. No campo, a situação não difere muito. A mudança desse quadro só virá através da emoção e é essa a primeira reação que quero com esta instalação", afirma.Bernardes fez em 1967 seu primeiro documentário, Desesperato, e recebeu seu primeiro prêmio, no Festival de Belo Horizonte. Em 1975, ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, pela montagem do curta Baudelaire, de François Weyersgans e, desde então, acumula láureas. Às vezes, seus vídeos partem de sugestões simples. Foi assim com Unknown Amazon, apresentado no Britsh Museum, em Londres, no ano passado, pela Brasil Connects."Eles tinham a idéia de mostrar a Amazônia em imagens de satélite e eu expliquei que a floresta é o detalhe", diz o cineasta. "Então, sugeri que se criasse uma enorme árvore e cada inseto e cada folha eram vistos em separado, como uma descoberta pessoal de cada espectador." A mostra foi um sucesso.Em Nósenãonós, essa linguagem se repete. Ao mesmo tempo em que se mostra a imensidão da cachoeira do Monte Roraima, com mil metros de queda livre, a câmera desce ao detalhe da água escorrendo entre as pedras. A distribuição e o trabalho da motosserra no Pará tem como contraponto a motosserra destruindo um apartamento mobiliado com mogno na cidade. "Só essa imagem, o banquete na favela e o bonde (comboio de bandidos) na favela são ficção. Todo o restante foi captado enquanto acontecia, mesmo a apreensão de mogno, a maior já ocorrida e com três vezes mais madeira que na anterior", afirma.Para conseguir essas imagens, ele capricha na pré-produção e usa a extensa rede de amigos que espalhou em suas viagens pelo País. "Conheço o Brasil de ponta a ponta, viajando sem luxo, mas descobrindo pessoas que me ajuda a achar meus temas. Sem elas não seria possível realizar esses vídeos, porque entrar sozinho em lugares como a extração de mogno ou a favela é risco de vida."

Agencia Estado,

09 de fevereiro de 2003 | 19h33

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