Documentários brilham no Cine Ceará

Uma noite feliz no encerramento da competição de longas-metragens do Cine Ceará, com dois excelentes documentários, dirigidos por dois irmãos. Janela da Alma, de Walter Carvalho e João Jardim, e Barra 68 - Sem Perder a Ternura, de Vladimir Carvalho. Os projetos dos irmãos Carvalho não poderiam parecer mais diferentes entre si. O de Walter (um dos mais ativos fotógrafos do cinema brasileiro, responsável pela luz de Central do Brasil) é um delicado ensaio sobre a função do olhar no ser humano. O de Vladimir fala de outro olhar, ou de outra cegueira, se se quiser: a da política. Seu tema é a invasão da Universidade de Brasília em agosto de 1968, durante a escalada de violência que caracterizou o ano mais tenso do regime militar. Os dois documentários foram muito aplaudidos pelo público que lotou o Cine São Luiz, sede do festival.Os diretores de Janela da Alma entrevistaram mais de 40 pessoas e retiveram apenas 17 desses depoimentos na montagem final. Há gente famosa, como Wim Wenders, Marieta Severo, Antonio Cícero, João Ubaldo Ribeiro, Manoel de Barros, Oliver Sacks, José Saramago, e pessoas desconhecidas, como Arnaldo Godoy, que perdeu a visão aos 17 anos e dá o depoimento mais emocionante do filme. Em Janela da Alma emoção e reflexão se alternam e se complementam, num equilíbrio raramente alcançado no cinema, uma arte que tende apostar mais no sensorial que no pensamento.Aliás, o filme procura mostrar que o pensamento sem a afetividade se esteriliza; e a emoção, sem pensamento, fica sem sentido. Olhar é - também - atribuir coloração afetiva àquilo que se vê. E, curiosamente, às vezes quem perdeu a visão é quem tem mais a dizer sobre esse sentido. Como se a perda real de uma função estimulasse a reflexão sobre ela. "Vê-se" com a memória, como Godoy, capaz de traçar um mapa mental da cidade onde vive, Belo Horizonte. Vê-se com estímulos sensoriais auditivos e uma aguda percepção da realidade como o fotógrafo cego que vive em Paris e produz fotografias maravilhosas.Entre os depoimentos marcantes há o da cineasta francesa Agns Varda, que filmou o marido, o também cineasta Jacques Démy pouco antes de ele morrer. Em Jacquot de Nantes, o filme, Agns filma Démy com tamanha intensidade sensorial que é como se quisesse se apoderar de um corpo destinado a desaparecer em breve. Uma filmagem rente à epiderme, um registro corpóreo, sensorial, de alguém que ama. O olhar da paixão é diferente do olhar neutro, que apenas vê. Essa banalidade ganha novo relevo com o depoimento de Agns, que vê com o coração. Na verdade, o ato de olhar ganha novo sentido com o conjunto de depoimentos e imagens desse belíssimo filme de Walter Carvalho e João Jardim. É mais do que se poderia desejar de um filme.Política - Vladimir Carvalho fala de outra cegueira, esta sim irremediável, e que pouco ensina. Barra 68 refere-se a um episódio policial, mas fala também de uma utopia não realizada, a da Universidade de Brasília, criada por Darcy Ribeiro quando da fundação da nova capital. O filme acompanha os tensos anos 60, a década dos extremos. Darcy havia criado a UnB com a proposta de uma universidade autônoma, crítica, livre. Com o movimento militar de 1964, esse projeto inviabiliza-se. Não se toleraria um exercício de liberdade tão explícito ali mesmo, no coração do regime. Começaram as perseguições, os expurgos, veio a renúncia coletiva dos professores, em 1965.Em agosto de 1968 o câmpus é invadido, e os estudantes que lá moravam foram aprisionados num improvisado campo de concentração, a quadra de basquete. Vladimir reúne os ex-alunos, hoje pacatos cinquentões, mas que mantêm a memoria bem viva daquele episódio dos anos de chumbo, e os faz repetir a caminhada rumo à quadra, com as mãos à cabeça. Há imagens de época. Elas foram registradas, clandestinamente, pelo cineasta cearense Hermano Penna (de Sargento Getúlio), então aluno da UnB. Hermano assistiu à invasão, apanhou uma câmera e filmou a violência pelas frestas de paredes, do alto de telhados, de onde podia. As imagens sobreviveram, caíram em poder de Vladimir e, pode-se dizer, foram o ponto de partida para o cineasta, que é paraibano, chegou a Brasília em 1970 (portanto depois que os fatos tinham ocorrido) e tornou-se professor da UnB.Janela da Alma e Barra 68 falam de visão e de cegueira, de drama e de redenção. Um fala do limite do invisível que está no horizonte de tudo aquilo que se vê. O outro fala desse termo em desuso que é a utopia, invisível também, mas que move a ação política digna dessse nome. Os dois insinuam a mesma coisa: quem só enxerga o que está diante do nariz está condenado a não ver coisa nenhuma.

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