Documentário ‘Vinte Anos’ vê Cuba como estado de espírito

Documentário ‘Vinte Anos’ vê Cuba como estado de espírito

Diretora Alice de Andrade expande curta para documentar mudanças ocorridas no mundo e em especial na ilha; filme estreia nesta quinta, 26

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2018 | 06h01

Filha de Joaquim Pedro de Andrade, uma das figuras icônicas do Cinema Novo, Alice de Andrade coloca-se num plano de modéstia em relação ao pai. Diz que faz filmes para o público. “Diabo a Quatro foi execrado pela crítica, mas teve a maior audiência da TV Brasil.” Ela não descarta que venha a realizar obras mais ambiciosas, inclusive como linguagem. Por enquanto, prefere atuar no registro da simplicidade. Estreia nesta quinta, 26, o documentário Vinte Anos, com o qual Alice concorreu no Festival de Brasília de 2016. Se dependesse do repórter, que, a propósito, era jurado, ela teria recebido o Candango principal. Teve de contentar-se apenas com o de melhor trilha.

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Apenas? A trilha musical faz a costura do filme. É forte, é bela, dançante. É curioso que, neste dia, estejam estreando dois filmes brasileiros tão diversos, mas com tantos pontos em comum. Um é o já citado filme de Alice, Vinte Anos. Nos 90, ela foi a Cuba, a convite do Channel Four, que encomendou a 12 diretores, entre eles Raul Ruiz, Arthur Omar e Alice, curtas sobre o Sul colonizado.

Cada diretor deveria fazer curta de até 24 min. Alice, que sempre foi ligada sentimentalmente à ilha, fez casting e filmou casais. Queria um filme com pelo menos 52 min., mas o Channel Four foi intransigente – 24. Ela fez Luna de Miel. Guardou o restante do material. Vinte Anos marca seu retorno a Cuba, e àqueles casais. No casting, foram 40. O filme documenta três.

O outro filme brasileiro que também estreia nesta quinta, e cuja origem é outro curta, é Alguma Coisa Assim, de Esmir Filho e Mariana Bastos. São maravilhosos. Um documentário, uma ficção. Na verdade, quando se dispôs a voltar a Havana, Alice queria documentar as mudanças na ilha. Raul Castro sucedera o irmão Fidel, prometia mudanças e Alice estava a postos, pronta com sua câmera. O problema é que o processo estava sendo lentíssimo.

Mas ocorreram coisas – o reatamento de relações com os EUA, sob Barack Obama, a visita do papa Francisco, o concerto dos Rolling Stones. Existem referências ao regime socialista, aos mutirões para construir casas, a Fidel. Mas o filme não está no lado do regime, e sim dos personagens. Com simplicidade, mas inteligência, Alice decifra o enigma.

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Cuba foi sempre idealizada pela esquerda e exorcizada pela direita. Fidel seria o próprio diabo, como ditador. Só malucos como Michael Moore seriam capazes de elogiar Cuba por seu sistema de saúde em Sicko, de 2007, inclusive levando à ilha, para tratamento, bombeiros heróis do 11 de Setembro que os planos de saúde dos EUA se recusavam a atender, por haverem aspirado pó e fumaça na desgraceira da implosão das torres gêmeas.

Com diálogos do cubano Leonardo Padura, o francês Laurent Cantet fez, em 2014, Retorno a Ítaca. Reunidos no terraço de um prédio em Havana, personagens de volta do exílio e outros que permaneceram na ilha discutiam os rumos da sociedade cubana. O filme é belíssimo, mas não mais que Vinte Anos. No longa de Alice de Andrade, Cuba é, acima de tudo, um estado de espírito. “Você captou a essência”, diz a diretora. Ela volta aos casais que, há 20 anos, celebravam sua lua de mel no momento em que os filhos estão se formando, tornando-se adultos e indo para o mundo. 

Casas, prédios, ruas estão sendo reconstruídos. As pessoas também se reconstroem. Um casal separou-se, mas permanece unido, mesmo em casas separadas. Outro mudou-se para Miami. No que se refere aos filhos, uma garota foi ser solista na Orquestra Sinfônica da Costa Rica – e, depois de ganhar o Grammy em 2016, hoje toca no Japão. Mesmo os que se dispersam permanecem cubanos na essência. Um povo musical, sensorial, sensual. O tributo de Alice é a seus personagens, mas há algo de resistência na atitude dessas pessoas que enfrentam as dificuldades sem perder a alegria.


Entrevista:

‘Personagens cativam com sua alegria’, diz a cineasta Alice de Andrade

Por que voltar a Cuba?

O curta Luna de Miel nasceu com vocação de ser média, mas não deu. E agora não só voltei como expandi. Trabalho numa série de TV que vai voltar ao casting original. Dos 40 casais, já achei 30. Vinte Anos segue 3 casais, a série seguirá 13.

Como explica essa fascinação que não é só sua por Cuba?

Tem a ver com uma ideia de resistência. O orgulho de resistir. Ao mostrar o filme em Brasília, protestando contra o impeachment, até achei que o filme poderia ser um corpo estranho, mas não. Há uma alegria nos personagens que contagia o público. Revivi isso em Havana, quando os personagens estavam lá. E até em Miami, com os ‘contras’. Tem sido emocionante.

Você justamente segue um casal de ‘Vinte Anos’ em Miami...

...E o motivo é simples. A gente só entende Cuba depois de conhecer Miami.

 

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