Documentário traz Bethânia, Caetano e Dona Canô

No Festival Internacional deDocumentários É Tudo Verdade, que vai chegando ao fim - apremiação ocorre sábado à noite, mas a programação vai atédomingo -, já houve um filme fundado sobre lembranças de umacasa vazia. A casa era do banqueiro Walter Moreira Salles, naGávea, filmada por seu filho João e filtrada pelo olhar domordomo. pode não concorrer a prêmios, mas é um dosfilmes mais importantes da edição deste ano (o mais?), aqueleque poderá marcar a história do documentário brasileiro. Háagora uma outra casa, de um outro clã. A de dona Canô, em SantoAmaro da Purificação, onde Maria Bethânia comemora seus 60 anos(e 40 de carreira). Maria Bethânia é o título do documentário e a artista écertamente sua atração principal, mas a verdade é que divide acena com o irmão, Caetano Veloso, e a mãe, dona Canô. AndruchaWaddington fez um filme sobre uma família brasileira, umafamília especial, certo, mas o tom é de intimidade e, mais queisso, casualidade. Dona Canô e os filhos sentam-se naquelavaranda e cantam. Não se diz muita coisa. Tudo o que importa vemdos olhares, dos gestos, das manifestações de carinho e dasmúsicas. "Música boa é música antiga", dona Canô diz e estáfalado. O filho, a seu lado, ri. Andrucha já havia conversado com Bethânia, que lhe disseque gostaria que ele fizesse um registro de sua festa deaniversário. Só que foi tudo decidido muito em cima da hora. Navéspera, Maria Bethânia fez, à noite, um show em Salvador. Pelamanhã, no Rio, Andrucha recebeu um telefonema da produtora deBethânia, que detém os direitos de seu selo, a Quitanda.Atendendo à encomenda da cantora, ele poderia fazer o registrodo espetáculo daquela noite? E poderia, no dia seguinte, ir aSanto Amaro, onde haveria uma missa e, à noite, uma festa nãoapenas da família, mas de amigos e da comunidade? Andrucha malteve tempo de reunir uma equipe e embarcar. Chegou ao camarim ecombinou - não queria fazer um documentário com perguntas.Queria que Bethânia o levasse, para onde quisesse. Ela o levou para dentro de sua casa, de sua família, maso filme não tomou esse formato em seguida. Andrucha montou omaterial colhido e seis meses depois, com o material quaseeditado, Bethânia o chamou para o sarau na varanda, uma coisabem íntima, bem familiar, que ocupa a maior parte dodocumentário. A festa, propriamente dita, foi para os créditosfinais. Andrucha quis interferir o mínimo possível. Para quem jáfoi acusado de cosmetizar o sertão - em Eu Tu Eles e Viva SãoJoão! -, ele assumiu a imperfeição, filmando, em digital, semnenhum cuidado de iluminação. No interior da casa, quandoCaetano canta, o rosto de Bethânia fica meio escuro. O queimporta? O que vale é a emoção. Maria Bethânia custou R$ 400 mil bancados pela Quitanda. Influenciado por amigos do Grupo Estação, do Rio,Andrucha propôs, e Bethânia aceitou, que o documentário sejalançado em cinema e DVD. Não haverá CD e será um lançamentopequeno, num circuito digital. Andrucha não finalizou o filme nosistema ótico e sim, em HD. Um musical que retrata a família ouo retrato de uma família musical? Maria Bethânia não quer outracoisa senão colocar o público naquela varanda em que uma mãe eseus dois filhos nos convidam para uma hora de deliciosaintimidade. Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda. CineSesc (326 lug.). R.Augusta, 2.075, (11) 3082- 0213. Sexta-feira, 21 h. Cotação: Bom

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