Documentário traz as histórias de um 'João sem Medo'

Festival 'É Tudo Verdade' apresenta trajetória de João Saldanha, comentarista e técnico da seleção brasileira

Luiz Zanin Oricchio, do Estado de S. Paulo,

08 de abril de 2001 | 16h44

Quem deu a João Saldanha (1917-1990) o apelido de João sem Medo foi seu amigo e colega Nelson Rodrigues. Nelson, como sempre, sabia do que estava falando. João, como aquele personagem de Caymmi, era valentão e brigão, apesar de magrinho. Comprava encrenca com todo mundo. Do dono de farmácia que lhe vendera pilhas vencidas aos ditadores do período militar. Foi durante a vida adulta toda militante do Partido Comunista Brasileiro e chegou à sua cúpula. Preparou a mitológica seleção de 1970 - aquela que conquistaria o tricampeonato para o Brasil, mas não sob o comando de João, demitido antes da Copa do México, numa história enrolada, até hoje não de todo esclarecida. João morreu, talvez, como queria. Na cobertura de outra Copa do Mundo, a da Itália, em 1990. Essa, em alguns traços, a vida de João Saldanha, contada no cinema por seu biógrafo André Iki Siqueira e por Beto Macedo. Veja também: Confira a programação do festival 'É Tudo Verdade'   O filme João, na programação do Festival de Documentários É Tudo Verdade, conta com depoimentos e imagens de arquivo do próprio João, para relembrar a história do menino gaúcho, filho de pai rico, que cresceu entre armas e conflitos, nas intermináveis disputas entre maragatos e chimangos. João foi forjado no combate e essa característica bélica o acompanharia ao longo da vida. Quando a família se mudou para o Rio, ele logo se adaptou à vida da praia. Aprendeu a curtir futebol de areia e jogou, com Heleno de Freitas, no time do não menos mitológico Neném Prancha. O filme avança com Saldanha tornando-se treinador do Botafogo, campeão carioca de 1957. Saldanha é um personagem tão rico que excede as pretensões de um documentarista. Tanto assim que Iki Siqueira, um dos dois que assinam o filme, escreveu uma sólida biografia intitulada João Saldanha - Uma Vida em Jogo (Companhia Editora Nacional) com nada menos que 552 páginas. Mas há um dado a mais, que aumenta o interesse do documentário. João é todo o tempo visto contra o pano de fundo do momento histórico que lhe foi dado viver. Nem poderia ser de outra forma, se quisesse ser fiel ao personagem, pois Saldanha foi sempre, integralmente, homem do seu tempo. Militante político, atuante e desassombrado, encarnou todas as contradições do período histórico em que viveu. E levou-as ao seu campo de atuação profissional - o futebol. Modernizador Mas, apesar da rigidez ideológica, era modernizador, pois atento à dialética (e, portanto, à mudança) inevitável da história. Percebeu que o tempo do futebol era outro e montou um time taticamente mais plástico para enfrentar a Copa do Mundo de 1970. Ao mesmo tempo, era inevitável que se chocasse com a estrutura militarizada da Comissão Técnica e que os conflitos se agravassem, impedindo-o de acompanhar a equipe que montara à conquista do tri. Há muitas versões para essa história e, como não existem certezas, o filme se limita a apresentá-las. Do desconforto de uma ditadura de direita com um técnico membro do PC à suposta imposição de Médici para a convocação do atacante Dario - tudo foi fermentando numa situação de fritura. Tostão resume: "O clima foi ficando tenso e nós (jogadores) sabíamos que não iria terminar bem." E não terminou mesmo. João foi demitido na véspera da Copa e voltou à função de comentarista esportivo. Desse ir-e-vir entre a história pessoal e a do País, o documentário tira sua força. Mas não menos atrativas são as pequenas histórias desse homem que era escritor despojado, mitômano militante que dizia ter participado do desembarque da Normandia e da Grande Marcha de Mao, do briguento capaz de atos de extrema generosidade, do frasista genial. De alguém que amou seu país acima de tudo. Quando lhe perguntaram se era otimista, respondeu: "Claro; se não fosse otimista já teria me naturalizado dinamarquês; acredito no Brasil e em seu povo." Esse era o João sem Medo, figura que talvez não tivesse vez neste ambiente mesquinho e burocratizado que é o nosso, um país de futricas e dossiês. E num futebol de mercadores e almofadinhas. João era de outra época. Pior para nós. Se estivesse vivo, estaria brigando por coisas em que acreditava.   João. De André Iki Siqueira e Beto Macedo. CineSesc. R. Augusta, 2.075, 4087-0500. Quarta, 2, 21h; Quinta, 3, 13h. Grátis. Cotação: Bom

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