Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Documentário transporta público para o universo mágico de Tom Jobim

'A Música Segundo Tom Jobim' é um documentário musical no sentido mais radical do termo

Luiz Carlos Merten , O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2012 | 22h00

Desde as primeiras imagens que batem na tela, A Música Segundo Tom Jobim transporta o espectador para um universo mágico. Surgem imagens do Rio, em preto e branco. À esquerda da tela, começa a aparecer um velho avião - da Panair do Brasil. Sem uma palavra, a imagem situa a época, os anos 1950, e o som já é o da trilha do documentário.

A codiretora Dora Jobim conta que embarcou, desde a primeira hora, no conceito proposto por Nelson Pereira dos Santos. O filme é um documentário musical no sentido mais radical do termo. As pessoas - Tom Jobim, Elis Regina, Frank Sinatra, Gal Costa, que é a primeira a aparecer, só cantam. Nenhuma entrevista, nenhum letreiro. Imagens e sons. É a antítese do moderno documentário musical, em que outras pessoas - em geral, os mesmos - dão seus depoimentos sobre os artistas focados. A crítica dessa tendência é feita pelo diretor Victor Lopes em As Aventuras de Agamenon, quando o jornalista Nelson Motta revela-se confuso e pergunta para qual filme está dando depoimento, e sobre quem.

Nelson acha graça da história contada pelo repórter. Todo mundo já entrou para a sessão especial de A Música Segundo Tom Jobim e agora Dora Jobim e ele estão à disposição do repórter no lobby do cinema no Rio. O conceito de Nelson fica expresso por meio de uma frase que só aparece no final. Seria óbvio colocá-la no começo, ela aparece só no fim, depois que o espectador já fez sua parte. Todo filme se constrói no imaginário do público, que precisa reconstituir no inconsciente o que acaba de ver, No caso de A Música Segundo Tom Jobim, mais ainda. A frase é do próprio Tom: "Só a linguagem musical basta".

Houve um período que até Hollywood quis contar a história de Tom Jobim. O próprio Nelson foi chamado para dirigir o filme. Iniciaram-se as tratativas. Tom hesitava. Nelson não tem medo de ser politicamente incorreto. "Ele tinha medo de que Hollywood pusesse algum viado para interpretá-lo e a coisa não evoluiu." Veio de um cineasta, Marco Altberg, a sugestão de que Nelson fizesse um documentário. Por que não? O patrocínio foi fechado no fim de 2009, no fim de 2010 o filme deveria ter ficado pronto. O prazo estourou. Menos por excesso de material e mais pelo cuidado em reunir material que Nelson e Dora Jobim, a esta altura incorporada ao projeto, consideravam imprescindível.

Dora trabalhou num projeto, Jobim Music, no começo dos anos 2000, que lhe permitiu conhecer o acervo do avô, mas reuni-lo não foi fácil. Foi preciso esperar o trecho do Japão. Judy Garland foi outra negociação interminável. O YouTube exigiu rios de dinheiro pelos direitos de Insensatez. Quando o material chegou, a qualidade deixava a desejar. "Judy já estava acabada, dá a impressão de cantar numa nuvem" afirma Nelson. Na lista de canções e artistas que não poderiam faltar estavam, claro, Sinatra, Elis Regina e Elizeth Cardoso. A cantora que era chamada de ‘divina’ canta Eu Não Existo Sem Você, cujas imagens em preto e branco pertencem a este Rio do alvorecer da bossa nova.

A cidade, como a cultura brasileira, estava em pleno processo de ebulição. No Planalto Central, Brasília estava sendo erguida. No Rio, construía-se o aterro. Elizeth canta, Agostinho dos Santos, também, e justamente A Felicidade, da trilha de Orfeu do Carnaval, que correu mundo como filme, premiado em Cannes, de Marcel Camus (mais tarde refeito por Cacá Diegues). E seguem as músicas. Elis e Tom, Águas de Março. Sinatra e Tom, Girl from Ipanema, Sarah Vaughan, Wave. E Diana Kroll, Pierre Barouh, Henri Salvador, Silvia Telles...

Uma grande reticência, porque não há um só intérprete que, fazendo uma leitura da música segundo Tom, não proponha algo denso, rico, original - mesmo quando a voz sai tão leve que parece não envolver o mínimo esforço. Gal Costa, Se Todos Fossem Iguais a Você.

A ‘história’, propriamente dita, de Tom é contada quase imperceptivelmente por meio de detalhes. Uma foto aqui, um filme ali, mas sem a indicação da época exata. Tom e Chico Buarque na final do Festival Internacional da Canção. A expressão do jovem Chico quando o público racha e as pessoas aplaudem e vaiam Sabiá. O que representava aquela música, aquela declaração de amor ao Brasil, às raízes, em plena ditadura? Não era o reverso exato de uma canção engajada como Caminhando, de Geraldo Vandré?

Nelson já levou A Música Segundo Tom Jobim a festivais internacionais - Nova York, Santa Maria da Feira (Portugal), Amsterdã. Em toda parte, a acolhida é entusiasmada, e emocionada. Ele sabe que fez um belo trabalho. Está sereno. Pronto para recomeçar. O próximo filme será um retorno à ficção, sobre Dom Pedro II. Nelson não antecipa o que será, mas com certeza quer falar mais uma vez de mudança. Com o imperador de brancas barbas, o Brasil monárquico virou republicano. Nelson, aos 80 anos, continua filmando revoluções - artísticas, humanas, políticas. O contexto é outro, não mais o do Cinema Novo, mas ele permanece fiel a si mesmo, e isso é ótimo.

Nelson Pereira dos Santos conhecia Tom Jobim desde o alvorecer do Cinema Novo. "O Tom fez a trilha de muitos filmes da gente, na época", ele conta. Quem o apresentou foi Cacá Diegues. Anos mais tarde, Nelson fez, na antiga Manchete, um especial de quatro episódios que já se chamava A Música Segundo Tom Jobim. Lá, sim, havia entrevistas com luminares da música popular e da erudita - por exemplo, Radamés Gnatalli -, que Tom entrevistava para contar uma história da música no País.

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