Documentário sobre o olhar destaca o invisível

Há um ano, João Jardim estava noCine Ceará, em Fortaleza. Ia exibir seu filme Janela da Alma(que venceu o festival). Em meio à ansiedade e confusãopré-exibição, Jardim, que sofre de miopia e astigmatismo, perdeuos óculos. Momento de pânico: sem óculos, ele não conseguiriasubir ao palco para apresentar Janela da Alma e muito menospermanecer na sala, para assistir à projeção.Salvou-o a prestativa funcionária de uma ótica local,que fez óculos especiais para ele num par de horas. João Jardimconta a história até como forma de elucidar quão importante otema de Janela da Alma é importante para ele, em sua vida.O filme que estréia amanhã nasceu como um projetosobre a dificuldade de visão. Evoluiu para um filme sobre oolhar. Inusitado, numa sociedade como a atual, que vive emfunção da imagem. No começo, quando comentava com amigos suaidéia e, depois, quando buscava recursos no mercado, por meiodas leis de incentivo, Jardim ouviu muitas vezes a advertência,seguida de conselho: "Isso não dá filme; por que não trata oassunto como ficção?" Poderia, talvez, ter feito uma ficção eele admira muito A Prova, da cineasta australiana JocelynMoorehouse, que usa a história fictícia de um fotógrafo cego -inspirada em Eugen Bavcar, que dá seu depoimento em Janela daAlma - para falar sobre a confiança. Insistiu em fazer umdocumentário. Ganhou um aliado em Walter Carvalho. Os doisdividem o crédito de Janela da Alma. Um filme escrito,produzido e dirigido por João Jardim, co-direção de WalterCarvalho.Formaram uma equipe mínima, de quatro pessoas: eles maisum assistente e o técnico de som. Viajaram pelo Brasil, foramaos Estados Unidos, à Europa. Esperaram meses para conseguir umdepoimento de José Saramago, mas valeu a espera. Na ilha em queSaramago habita, conseguiram do escritor premiado com o Nobel umdos melhores depoimentos do filme. Às vezes, o que uma pessoadizia levava à vontade de entrevistar outra. No filme ficaram 17depoimentos. Foram captados cerca de 50. Entre as pessoas quefalam (e ficaram) estão: Hermeto Pascoal, Oliver Sacks, AgnèsVarda. Entre os que foram suprimidos, David Blunkett, o ministroinglês do Trabalho e da Educação, que é cego. "Nos empenhamosem conseguir o depoimento dele, mas ficou formal demais; nãoservia para o que queríamos."Orçado em R$ 800 mil, o filme pode ser consideradoproduto da obsessão de João Jardim pelo assunto, logo comunicadaa seu co-diretor, Walter Carvalho. Eles pedem que sejam citadosnomes como o do produtor Flávio Tambellini e o da pesquisadoraRenée Castelo Branco. "O trabalho dela foi valiosíssimo na fasede planejamento e preparação", dizem. O conceito que presidiu arealização veio de Santo Agostinho, que considerava a visão omais espiritual dos sentidos. Já o título veio de Leonardo DaVinci, que considerava o olho a janela da alma e dizia que setrata do principal órgão pelo qual "o entendimento pode obter amais completa e magnífica visão dos trabalhos da natureza".Jardim, mais até do que Carvalho, já participou demuitos debates sobre o filme. Sabe que Janela da Alma sepresta aos exercícios de erudição, porque o tema da visãoimperfeita, tal como é proposto aos depoentes - de que maneira adificuldade de visão influenciou sua personalidade e sua vida? -, presta-se às mais variadas leituras. A deles situa-se entre aconsciência social de Saramago e a poesia de Oliver Sacks, quediz que o ato de olhar não é só para fora. Deve-se olhar tambémpara dentro, em busca do invisível. Jardim só lamenta não teraprofundado a questão do outro. Para afirmar-se, os cegos quasesempre precisam enfrentar mais o preconceituoso olhar dos outrosdo que a própria deficiência visual.Janela da Alma. Documentário. Direção de João Jardim eWalter Carvalho. Br/2001. Duração: 75 minutos. Livre.

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