Documentário sobre Garrincha é fruto da época

Garrincha, coitado, não tem culpanenhuma disso, mas foi provavelmente o maior gerador de clichêsdeste País. Em seus melhores tempos parecia encarnar comoninguém o tipo ideal do brasileiro. Ou melhor, a imagem que obrasileiro gostaria de ver refletida no espelho. De físicodesengonçado, era um gênio esportivo. De origem humilde,tornou-se famoso. Falso ingênuo, guardava uma esperteza de fundo, macunaímica, que desconcertava os rivais. Com seus dribles,humilhava joões patrícios e gringos. Era individualista numesporte coletivo, mas colocava esse talento individual a serviçodo todo - basta lembrar sua atuação na Copa de 1962 no Chile,quando driblou (como sempre), mas também cabeceou, marcou, deupasses, chutou a gol de pé esquerdo e foi o principal jogador daseleção e do torneio. Havia produtividade naquela anarquia toda, eacreditar-se a solução do impasse entre a inspiração e atranspiração é o sonho secreto de todo brasileiro. Garrinchajuntou os dois fios da meada, chutou para escanteio acontradição entre a alegria dionisíaca e eficácia apolínea e comisso virou o herói de todos nós. O fato de ter acabado mal emnada altera a nossa admiração. Garrincha foi vítima porqueencarnou até o fim a agonia e a glória de ser brasileiro. Como qualquer mito, o de Garrincha também é mais fácilde ser mantido do que analisado. Na verdade, resiste à análise,porque o mito se alimenta da cuidadosa seleção de fatos - tudo oque serve para engrandecer o mito é incorporado a ele; o que odesmente, ou o coloca em dúvida, é recalcado. No entanto, Joaquim Pedro de Andrade ousou apresentar umdocumentário reflexivo sobre o ídolo, em 1962 - ou seja, quandoele estava no auge da fama, era figurinha carimbada nas ruas doRio de Janeiro e de todo o País e vivia o auge do seu romancecom a cantora da hora, Elza Soares. Garrincha, Alegria doPovo não pretende de maneira nenhuma ser desmistificador, nosentido comum do termo. Não quer ser um estraga-prazeres dopúblico e dizer que o ídolo tem pés de barros. Nada disso e pelocontrário: boa parte do filme é dedicada às fabulosas jogadas deMané Garrincha, em especial ao seu drible clássico: ameaça sairpela direita, e sai sempre por ali - o adversário só não sabequando. E ao tentar interceptar a jogada, o marcador perde oponto de equilíbrio, e às vezes cai de bunda, para delírio dagalera. Mas Joaquim não fica nessa, pois o filme também é umareflexão sobre o papel social do futebol. Hoje isso tudo parecevelho como o rascunho da Bíblia, mas naquele tempo discutia-se asério se o futebol seria contra-revolucionário por aliviartensões que poderiam ser mais bem usadas na transformaçãosocial. De modo que Joaquim, ao mesmo tempo em que faz umacolagem criativa e admirada dos lances de Garrincha, procuramostrar como estes contribuem para a catarse coletiva. Outraparte do filme procura retratar a vida pessoal do jogador -muito bem sucedida, na época. Depois sai um pouco do tema, paracercá-lo de uma maneira mais geral, mostrando o papel do futebolna vida social brasileira, e o impacto emocional da derrota noMundial de 1950. Não se pode avaliar esse filme sem levar em conta aépoca em que foi feito. Primeiro: o distanciamento, que às vezesparece frieza, é apenas uma exigência política. Podia haver emJoaquim um sincero admirador de Garrincha, mas prevalecia nele avontade de análise, a sensação intelectual de compromisso com anação e portanto com as implicações sociais da existência deastros futebolísticos. Também não devem incomodar ao espectadorde hoje certas leituras esquematicamente psicanalíticas, como aque tenta explicar a afinidade do brasileiro com a bola porqueesta lembraria o seio materno, etc. São traços de época. O outrolembrete é de que naquele tempo Garrincha estava no ápice, noapogeu e não poderia subir mais. O declínio seria natural, masninguém se atrevia a prever seu fim melancólico em 1983. Muitos anos depois, foi o livro de Ruy Castro, AEstrela Solitária, que se incumbiu de revelar a face menosgloriosa de Garrincha. O leitor ficou sabendo da tragédia dainfância pobre, dos traumas, da solidão e, sobretudo, dopertinaz problema de alcoolismo que o jogador carregou vidaafora e acabou por destruí-lo. Boleiros, o longa-metragem de Ugo Giorgetti, éperspicaz ao mostrar como é dura a saída de cena para alguém quesentiu pulsação de um estádio de futebol inteiro gritando seunome. Os ex-jogadores do filme, figuras ficcionais, mas em boaparte baseadas em casos verdadeiros, são obcecados pela memóriados dias de glória. Um deles diz que quando sonha vê-se sempreem campo, jogando, apesar de já ter parado de atuar há muitosanos. O depoimento é verídico e foi dado por um ex-jogador, dizo cineasta. Garrincha parou muito cedo, vítima de contusões nosjoelhos, as mesmas que quase acabaram com a carreira de Ronaldo.Os tempos eram outros, a medicina era outra e ainda existemversões sobre as famosas injeções que Garrincha teria recebidopara poder jogar, mesmo machucado, o que pode ter apressado seufim como atleta. Garrincha foi um personagem trágico, multifacetado eambivalente - e o cinema deve-lhe uma homenagem à altura,rigorosa e verdadeira.

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