Documentário roça emoções primárias

Como montar um documentário sobre a velocidade unicamente com a fala dos pilotos? Pois é isso, na prática, o que tenta fazer A Era dos Campeões. Faltam imagens, mas falam - e muito - alguns personagens como os irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi, Nélson Piquet, Ayrton Senna, Chico Serra, Ingo Hoffman, além de comentaristas esportivos. Além disso, os depoimentos são assimétricos. Se com Emerson e Piquet conseguiram-se entrevistas completas, exclusivas, no caso de Senna teve-se de trabalhar com material de arquivo.Porque, claro, um filme que se propõe reviver uma época de grandes conquistas na Fórmula 1, precisa trabalhar com a tríade Fittipaldi-Piquet-Senna. Uma tríade emblemática: o desbravador; o enfant terrible e o valente, que paga a ousadia com a própria vida. São figuras míticas, como tendem a ser os grandes nomes do esporte. Garrincha e a ingenuidade malandra. Pelé, o profeta do autêntico gênio nacional, o brasileiro que deu certo, síntese do improviso com a ordem.Figuras míticas, que no caso dos esportistas, são desenhadas com as cores do civismo. Não é apenas a Seleção que é (era, melhor dizendo) a pátria de chuteiras. Emerson, Piquet, Ayrton "representavam o País" nas inesquecíveis manhãs de domingo, quando de fato entravam na pista para ganhar. Há toda uma carga simbólica mística que faz do esporte algo maior do que ele próprio. Os grandes campeões carregam nos ombros essa responsabilidade. Mas, cada qual com seu estilo, como se vê assistindo-se ao filme. Emerson é emotivo, Piquet irreverente. E Senna? Um mistério, e no entanto, do trio, é dele a única biografia completada, porque prematuramente encerrada naquela fatídica curva Tamburello do circuito de Ímola. A imagem que se tem de Senna é a de uma prolongada alegria, uma vontade quase infantil de vencer, que termina num dos grandes lutos nacionais.O trabalho com esse tripé assimétrico dá dinamismo a A Era dos Campeões. Em especial pela montagem esperta, que corta de um depoimento para outro, criando no espectador uma impressão de contrapontos, e nada maniqueísta. Sente-se que Emerson está sendo sincero ao esconder as lágrimas quando se lembra de um colega que morreu na pista, logo adiante dele, sob suas vistas. Sabe-se que Piquet sente aquilo mesmo, ao evocar sem nenhum problema a rivalidade com Senna, ou comentar com desdém a "lentidão" de Barrichello.Exemplar - As imagens vão se formando. E com maior nitidez porque se tratam de personagens contrastantes. Nenhuma carreira é mais exemplar que a de Emerson, que, como os outros, vai do kart à F-1, mas ele sim, na condição de desbravador. De primeiro brasileiro a realizar o feito. "Difícil é ser o primeiro", admite Piquet, "depois o caminho já está aberto". Mais ou menos porque, mesmo com o caminho aberto, era preciso ser um gênio da mecânica, como Piquet, ao que parece incomparável para acertar um carro, para dar seqüência à série de vitórias de Emerson. Depois vem Senna, com sua técnica e ousadia, mas, segundo Piquet, nenhuma vocação mecânica para afinar um carro, como ele, Piquet, fazia. Rivalidades, em três carreiras que não representam três gerações completamente distintas, pois se encavalavam. Quando um surgia, o outro ainda estava na pista.Um pouco desse mundo loucamente competitivo da Fórmula 1 surge na tela quando um piloto fala do outro. Heróis? Certamente mas heróis que têm medo, porque trabalham com o sucesso, o desafio, mas com a presença constante da morte. Tudo se matiza nesse encontro com a finitude. Mesmo para Piquet. Se é impiedoso ao dizer que Barrichello deixou de ser veloz depois de determinado acidente, admite que ele mesmo, Piquet, jamais foi o mesmo piloto depois de enfiar o carro num muro e ver a morte de perto. Na Fórmula 1, como no boxe, o importante não é ter ou deixar de ter medo - é saber administrá-lo.Eles enfrentam o medo em nosso nome. Por isso os invejamos, respeitamos, odiamos. E por isso nos sentimos culpados quando morrem por nós, como aconteceu com Senna. A Era dos Campeões roça nesse mundo de emoções primárias.

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