Div
Div

Documentário revela a sensibilidade de Patrício Guzman

‘Filmar Obstinadamente’ delineia as emoções que motivaram o cineasta chileno a registrar a realidade chilena e passa neste sábado na Mostra

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2014 | 03h00

O 11 de setembro é uma data particularmente dolorida para os chilenos – foi nesse dia que, em 1973, os militares, sob o comando do general Augusto Pinochet, bombardearam o palácio presidencial, La Moneda, em Santiago, tomando o poder à força de Salvador Allende, assassinado.

Ciente da gravidade da situação, o cineasta Patrício Guzmán saiu às ruas com outros colegas e, cada um com uma câmera, retrataram um dia de barbárie. Cenas que, depois de editadas, se transformaram em um clássico do documentário político, A Batalha do Chile (lançada no Brasil pela Videofilmes).

A Mostra exibe neste sábado, 18, uma pequena joia, Filmar Obstinadamente – Um Encontro com Patrício Guzmán, longa dirigido por Boris Nicot. À primeira vista, trata-se de uma entrevista com o cineasta chileno, que conta detalhes das filmagens daquele dia fatídico. Mas, à medida que Guzmán decupa o próprio trabalho, o documentário revela um artista preocupado com as dificuldades de seu povo em lidar com um fato tão sofrido. “O Chile é um país construído em torno da dor”, diz ele, em determinado momento.

Ao mostrar o cineasta revendo o próprio trabalho, a lente de Nicot capta com extrema felicidade o incômodo que o acontecimento ainda provoca. Guzmán conta como foi o esquema de filmagem, desde a distribuição das câmeras móveis até a intrincada forma de composição de governo que resultou na deposição e morte de Allende.

É extremamente tocante rever, ao lado do cineasta, as reações de estudantes que, anos depois, assistiram à A Batalha do Chile. Não fazia muito tempo que o regime militar se instalara, mas aqueles jovens desconheciam o que se passara em seu próprio país. Do choro convulsivo de alguns ao desabafo raivoso de outros, é possível notar como a realidade machuca. 

Assim como Eduardo Coutinho em um registro diferente, Patrício Guzmán revela-se um artista com um talento nato para entrevistar e captar emoções genuínas. E Nicot segue pelo mesmo caminho ao homenagear um homem que sabe o valor da memória.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.