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Documentário revela a história de Aracy Guimarães Rosa e a salvação de judeus

Dirigido pelo ator Caco Ciocler, 'Esse Viver Ninguém me Tira' joga luz à mulher do genial autor de 'Grande Sertão - Veredas'

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2015 | 16h43

 No Festival de Gramado – Cinema Brasileiro e Latino, em agosto passado, Esse Viver Ninguém Me Tira foi o último filme da competição oficial. Os últimos serão os primeiros – o longa documentário assinala a estreia na direção do ator Caco Ciocler. Na época, a parceira de Caco no projeto, a coprodutora – que tem um crédito de correalização – Alessandra Paiva anunciou que era intenção da dupla aproveitar e colocar o filme imediatamente em cartaz. Imediatamente, não deu, mas Esse Viver Ninguém Me Tira passou a virada já em cartaz nos cinemas. Pode não ser um grande documentário para ficar na história do cinema brasileiro – como algumas obras de Eduardo Coutinho e/ou João Moreira Salles –, mas você vai agradecer pelo resgate que Caco e Alessandra fazem de uma personalidade singular.

 

Na coletiva do filme, na serra gaúcha, o diretor contou que o filme sobre Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa lhe permitiu descobrir parte de sua história, e também da história dos judeus na Alemanha, sob o nazismo, nos anos 1940. Aracy foi casada com o escritor João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão – Veredas e Sagarana, e de certa forma viveu à sombra do marido famoso (e genial). Mas, antes disso, quando morou em Hamburgo, secretariando o consulado do Brasil, Aracy valeu-se do cargo para emitir vistos falsos e passaportes que permitiram a muitos judeus abandonar o país – e escapar do Holocausto. Tornou-se o anjo de Hamburgo, uma espécie de Schindler de saias. Isso lhe valeu uma rara honraria. Embora o chanceler Oswaldo Aranha tenha presidido a Assembleia da ONU que resultou na criação do Estado de Israel, Aracy é a única brasileira cujo nome está escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém.

 

Quando Caco chegou ao projeto, ele já estava em andamento, tocado por Alessandra, que conhecera Aracy e sua história por meio de uma nota quando ela morreu, em 2011. Havia muita coisa que levava Alessandra a se interessar pelo assunto. Aracy era mãe solteira – de um filho de cinco anos – quando foi viver no estrangeiro, e na Alemanha nazista. Sua coragem e determinação foram inspiradoras. Mas o filme teria tomado outro rumo sem Caco. “No roteiro inicial, havia a proposta de falar com as filhas de Guimarães Rosa, abordando a personalidade de Aracy em função do escritor. Depois de muito avaliar, chegamos à conclusão de que seria uma questão extremamente particular, e não caberia expor a vida íntima da família. Isso terminou nos forçando a falar da Aracy independente de Guimarães Rosa. A tirá-la da sombra dele”, contou o diretor em Gramado.

 

O formato é simples e direto – narrado em primeira pessoa pelo diretor, o documentário é conduzido pelos depoimentos. “O caminho que me interessava, como judeu, era entender quem era aquela mulher, por que fez tudo aquilo. E para isso não tínhamos muitos documentos. Para ser sincero, consegui uma carta, em alemão, que traduzimos, mas era muito complicada e preferi deixar de fora, porque não ajudaria a elucidar nada.” Mesmo com crédito de codireção para Alessandra, a mudança de rumo foi tão grande que o documentário sobre Aracy também é sobre Caco Ciocler. Momento muito especial é o diálogo do ator e diretor com seu avô. A questão judaica, a humanidade de Aracy, tudo aflora. Quando Caco vai rezar no Muro das Lamentações, não se trata de excesso nem exibicionismo. É um trabalho sensível, delicado e autoral.

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