Christian Faccin
Christian Faccin

Documentário revela a face séria de Mussum

Susanna Lira, diretora de 'Clara Estrela', sobre a cantora Clara Nunes, finaliza documentário sobre o artista

Amilton Pinheiro, ESPECIAL PARA O ESTADO

31 Janeiro 2018 | 20h05

Da infância, a roteirista, diretora e produtora, Susanna Lira lembra que sua mãe a levava, junto com o irmão, à Cinelândia, no Rio de Janeiro, para assistir aos filmes que os Trapalhões lançavam todo ano. “Como éramos filhos de mãe solteira, sem muita escolaridade e pobre, as coisas lá em casa eram difíceis - parte da minha formação veio dos filmes desse quarteto genial”, entende a diretora, que finaliza o documentário Mussum - Um Filme do Cacildis, sobre o humorista e sambista Antonio Carlos Bernardo Gomes, do grupo Os Originais do Samba e que morreu aos 53 anos, em 1994, depois de complicações por causa de um transplante de coração.

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Com mais de 20 anos de carreira, a diretora transita hoje entre o documentário - sobre artistas como Zé Bonitinho, Clara Nunes e mulheres sambistas, pacientes portadoras de HIV e esposas que assassinaram seus companheiros - e duas séries de ficção que vão estrear na televisão. Uma sobre uma delegacia especializada em combater crimes raciais, de intolerância e de gênero, e outra sobre o médico Roger Abdelmassih, acusado de estuprar as pacientes em seu consultório.

+++ Mussum continua mais presente do que nunca

“Sempre tive uma relação fortíssima com alguns artistas do samba, como Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Os Originais do Samba, pessoas comuns que tiveram de batalhar para superar dificuldades materiais e preconceitos. A visão de mundo dessas pessoas também formou meu olhar sobre questões tão importantes e ainda presentes na sociedade brasileira como racismo, intolerância religiosa, de gênero e condição social”, explica Susanna.

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O documentário sobre Mussum não se furtará de tocar em pontos polêmicos que envolveram a trajetória do artista, que se integrou em 1973 aos Trapalhões, formado, na época, por Didi e Dedé. Foi ideia de Dedé, que o assistiu em um programa humorístico na extinta TV Tupi e já o acompanhava no grupo Os Originais do Samba - Mussum tocava reco-reco e cantava.

O cidadão Antonio Carlos sabia separar muito bem o personagem da vida pessoal. Se por um lado Mussum criava expressões como “forevis” e “cacildis”, bebia muito e dizia que “negão é seu passadis”, o ator Antonio Carlos não admitia que o tratassem dessa forma. Aliás, não permitia preconceito de espécie alguma, chegando a brigar com duas pessoas que o chamaram de “negão”. 

“Ele não admitia ser desrespeitado. Era muito responsável com as finanças e muito rígido na educação dos cinco filhos, que teve com cinco mulheres diferentes. Estudou em internato e chegou à Aeronáutica”, explica a diretora, lembrando que, apesar do sucesso estrondoso dos Trapalhões, sua grande paixão era o samba e o grupo que ajudou a fundar, Os Originais do Samba, no final dos anos 1960.

Cineasta era proibida de ouvir Clara na infância

Se a mãe evangélica não via nenhum problema em levá-la para ver um filme dos Trapalhões, a cineasta Susanna Lira era proibida de escutar em casa as músicas da cantora Clara Nunes (1942-1983), por conta da religião da sua família.

“Mesmo com a proibição, era fascinada por Clara, pelas roupas e objetos que usava, pelas músicas que exaltavam as religiões afro-brasileiras e a natureza, e, principalmente, pela maneira como ela se colocava como mulher, quando falava da necessidade de trabalhar para não depender de ninguém, da compreensão que tinha como artista”, comenta a diretora.

O projeto Clara Estrela, que o Canal Curta! exibe na segunda, 5, às 22h20, foi apresentado a Susanna por Rodrigo Alzuguir, que assina a codireção do documentário. Ele já havia feito uma vasta pesquisa sobre a artista.

Até então, ninguém havia realizado um registro biográfico audiovisual sobre a cantora, algo inadmissível para Susanna diante da importância ímpar que ela teve (e ainda tem) na música brasileira. “Começamos a entrevistar artistas que conviveram com Clara Nunes, como Chico Buarque, a Velha Guarda da Portela, sambistas, conversas informais com o marido dela, Paulo César Pinheiro, e, já tínhamos marcado uma entrevista com Maria Bethânia, quando decidimos que deveríamos mostrá-la em primeira pessoa - não mais no formato clássico de imagens entrecortadas com depoimentos de outras pessoas falando a respeito dela”, explica.

Depoimentos. A decisão se mostrou acertada - o espectador que assistir ao documentário Clara Estrela, já exibido em alguns festivais, como Fest Rio e Fest Aruanda, e com chance de ser lançado comercialmente em algumas salas de cinema, caso os diretores consigam uma distribuidora, terá a comprovação.

No documentário, a trajetória da cantora é reconstituída por ela própria, em entrevistas fornecidas para programas de televisão e para diversos veículos impressos. A locação em off da atriz Dira Paes simula como se fosse Clara falando.

O documentário traz ainda imagens de arquivo da cantora visitando sua cidade natal, Paraopeba, em Minas Gerais, e seus grandes sucessos, especialmente nos clipes que ela gravou para o programa Fantástico, da Globo, entre os anos 1970 e o início dos 1980. Uma chance para ouvir novamente O Mar Serenou, Feira de Mangaio, Conto de Areia e Morena de Angola.

OUTROS PROJETOS

Rotas do Ódio

A primeira temporada da série que será exibida no Universal Channel no final do primeiro semestre irá retratar uma delegacia em São Paulo especializada em combater crimes de intolerância. A série de dez episódios será protagonizada por Mayana Neiva, que viverá uma delegada nordestina, e Antonio Saboia, policial que ajuda a delegada nas investigações dos crimes.

Torre das Donzelas 

Documentário sobre presas políticas que dividiram as seis celas de uma torre abandonada do presídio Tiradentes, em São Paulo, reativada para recebê-las. Entre as presas, a ex-presidente Dilma Rousseff, que fala abertamente pela primeira vez sobre os três anos que ficou lá com outras mulheres, entre 1969 a 1972.

Bem Vindo ao Inferno

Série em cinco capítulos sobre o médico Roger Abdelmassih, acusado de estuprar pacientes em seu consultório, entre 1995 a 2008. A série vai ao ar no SBT no segundo semestre.

Legítima Defesa

Documentário já exibido pelo Canal Brasil sobre mulheres que mataram seus companheiros e maridos. Deverá percorrer festivais antes de chegar nos cinemas.

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