Documentário revê trajetória de "O Sol" nas bancas de revista

Foi uma bela festa. Tetê Moraes reuniu domingo, no terraço do Instituto Histórico e Geográfico, no centro - de frente para a Baía de Guanabara, com a vista deslumbrante do arco que vai da Ilha Fiscal ao Pão de Açúcar -, boa parte da elite jornalística e intelectual do País. Ela chamou toda aquela gente para rodar cenas que serão usadas em seu novo documentário, O Sol - Caminhando contra o Vento, sobre o jornal Sol, que teve uma vida tão efêmera - seis meses - quanto brilhante, no Rio da ditadura militar. O último número de Sol circulou em 5 de janeiro de 1968. Tetê era uma das meninas do Reynaldo - o jornalista Reynaldo Jardim, criador do Sol. Trabalhava na diagramação. O jornal - alternativo - era encartado no Jornal dos Sports e virou porta-voz da esquerda contra o regime que se tornava mais e mais autoritário e repressor. A redação toda era contra, mas havia uma divisão entre os conscientes e os desbundados. Esses eram os hippies do Sol, encastelados nas páginas de cultura, cuja responsável era Marta Alencar, hoje produtora dos filmes do marido, o ator e diretor Hugo Carvana. A própria Marta estava lá e foi quem entrevistou o ministro Gilberto Gil, da Cultura. Ele chegou à paisana, sem terno nem gravata, mas com lenço e documento, para reviver suas experiências da época. A primeira pergunta - que não quer calar, como disse Marta - foi sobre Caetano Veloso. Num depoimento gravado dias antes, Caetano não esclareceu se pensava especificamente no Sol ao compor Alegria, Alegria. A música, que concorreu no Festival de MPB da Record com Domingo no Parque, de Gil, e A Banda, de um certo Chico, tem aquele verso que diz "O sol nas bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?" Caetano freqüentava a redação. Namorava Dedé Gadelha, que era da equipe do Sol. Como a música não tinha nada a ver com o jornal? "Não me lembro de ele ter composto especificamente, mas de um ponto de vista subliminar tinha tudo a ver. Aquilo fazia parte do espírito da época. A gente participava do Sol." Gil não é uma pessoa facilmente entrevistável. Você pergunta o que quer, mas ele também dá a resposta que bem entende. Faz parte do seu charme. O ministro participou na semana passada de um debate, no Nordeste, para discutir o movimento de 31 de março. Foi paradoxal - disse que o regime militar foi responsável pelo surto de liberdade que acometeu o Brasil nos anos 1960. "Ao mesmo tempo que houve repressão, tortura, fechamento do Congresso e todos aqueles instrumentos excepcionais de que a ditadura lançou mão para se consolidar, o reverso também foi verdadeiro e o Brasil nunca teve tanta consciência da importância e da necessidade de liberdade." Ele encaixa o Sol nesse momento específico da vida política e cultural brasileira. "O jornal pode ter durado pouco, mas foi muito importante como farol para a chamada imprensa nanica, que se consolidou depois com o Pasquim e virou uma arma contra o regime. Com todas as tentativas de amordaçamento, o Brasil respirava liberdade por meio dessa imprensa independente." O Gil que deu seu depoimento podia ser o cantor e compositor que havia estudado administração e chegava à música após passar pela militância estudantil, mas o homem que falava também era o ministro da Cultura do Brasil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O repórter do Estado perguntou-lhe o que achava das recentes críticas de Caetano ao governo Lula. Caetano, na semana passada, cobrou urgência ao governo. Disse que está desapontado com o governo que prometia mudar o Brasil e agora está sendo mudado - adotando um perfil mais conservador, "Muitos de nós, dentro do governo, pensamos como ele. O governo não é um bloco único. A maioria de nós nunca teve experiência de governo e a máquina pública é algo difícil de controlar. Estamos aprendendo. É preciso paciência para que o governo possa fazer aquilo a que se propõe." Apesar dos percalços, Gil está otimista? "Sou sempre otimista", responde o ministro com um largo sorriso, mas acrescenta que nem se trata de um otimismo pessoal - as coisas que precisam ser feitas terão de ser feitas. É inevitável, acredita. Para Gil, a realidade do mundo pós-moderno é fragmentada. O que existe hoje é o que ele chama de ´flutuação do real´. "A simultaneidade dos meios de comunicação mudou o mundo nas últimas décadas. Qualquer tentativa de interpretação do mundo tem de passar por aí." A insatisfação com os rumos do governo, expressa por Caetano, ganhou eco em outros integrantes da festa promovida pela cineasta Tetê Moraes. Ana Arruda e Isa Guerra a manifestaram em conversa com o repórter do Estado. Ana faz parte da história da imprensa brasileira - não por acaso, vai ser tema de uma tese de doutorado. Houve mulheres jornalistas antes dela, mas Ana foi a primeira a trabalhar diariamente numa redação, a pegar a pauta de cada dia para escavar notícias na rua. Foi a primeira chefe de reportagem e também diretora de Redação do Sol. "Eu era responsável por botar o jornal na rua." Ana estava adorando o clima de festa, o reencontro com amigos, o antigo sonho compartilhado virando sonho, de novo. Mas tem dúvidas quanto à democratização do Brasil atual. Acha duro que o fiel da balança do governo Lula seja o ex-presidente Sarney. "É desapontador." Isa Guerra pensa da mesma maneira. Antropóloga, ela sempre foi guerreira até no nome. Viveu exilada e casou-se com um canadense que a transformou em ´Labelle´ (era o sobrenome dele). Isa Guerra Labelle - a bela. Ana conta a história rindo. São duas senhoras, mas neste momento reencontram o fogo da juventude. Isa não é menos crítica. Vê sempre as mesmas pessoas, a mesma elite que luta por seus privilégios revezando-se no poder, no País, em cargos decisivos, mesmo que o presidente seja um homem do povo e seu governo queira ser popular. Há uma contradição entre o discurso e a prática, avalia. Um encontro sobre a geração 68 não estaria completo sem Zuenir Ventura. Ele reviveu o clima da época no encontro com amigos. Acha que Maio de 68 é eterno. "Politicamente, fracassamos, mas do ponto de vista ético essa é uma bela história que continua", diz. Os velhos, que viveram 68, lembram-se do ano em que viveram em perigo com excitação e entusiasmo. Os jovens, que não viveram a época, a idealizam. "68 é uma esperança que não acaba", Zuenir arrisca. É essa emoção que Tetê Moraes, a diretora de Terra para Rose e O Sonho de Rose, quer colocar em seu filme sobre o Sol.

Agencia Estado,

07 de abril de 2004 | 16h13

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.