Documentário revê seqüestro de lotação

Em 1998, o diretor carioca José Padilha exibiu no Sundance Film Festival, nos Estados Unidos, um documentário sobre o desmatamento de florestas para a produção de carvão vegetal. Os Carvoeiros não resolveu o problema da devastação das matas no interior do Brasil. Mas isso não aplacou o ideal de Padilha de continuar fazendo filmes que cutuquem com vara curta determinadas deformações da sociedade (brasileira). Esse também é o objetivo de Ônibus 174, filme que remexe na triste lembrança do cerco policial a um seqüestrador de um coletivo carioca, ocorrido há dois anos, que acabou na morte de uma refém e na execução de seu algoz.O filme consumiu cerca de R$ 700 mil. Vai fazer sua estréia nacional no Festival do Rio BR, que começa no dia 26. Reaviva a memória da tragédia que abalou o País (e até o mundo) a partir das imagens emprestadas pelas emissoras de TV que cobriram o longo (quase 4 horas e meia) e torturante episódio. Mais do que isso, se propõe a refletir sobre o drama ao complementar a reprise do seqüestro em si com o depoimento de pessoas que participaram direta ou indiretamente do incidente, que resultou na morte da jovem recreadora Geisa Firmo Nascimento e do ex-menino de rua Sandro do Nascimento.Depoimentos - A lista de depoentes de Padilha e de seu co-diretor Felipe Lacerda inclui policiais que participaram da ação, passageiros tomados como reféns e parentes das vítimas, jornalistas que acompanharam de perto o desenrolar do seqüestro. Também foi atrás de pensadores sociais, como a assistente social Yvone Bezerra de Mello, que conhecia Sandro desde os seus tempos de menino de rua na Candelária. Surge diante da câmera de Padilha (devidamente escondida sob um capuz negro) até um membro do Bope, o Batalhão de Operações Especiais carioca, que comenta os desníveis de formação e determinação dos companheiros de seu grupo e os da polícia comum.Ônibus 174 registra o reencontro de ex-reféns com a sensação de pânico daqueles momentos, como Janaína Neves e Luana Blemont. Vai atrás da opinião do comandante Rodrigo Pimentel, exonerado após o episódio, e hoje candidato a uma vaga a deputado pelo Estado do Rio, sobre a polêmica posição tomada pelo governador do Rio, que primeiro defendeu a ação policial que resultou nas duas mortes e depois voltou atrás. "Falou-se umas seis vezes com o governador durante o seqüestro. Ele exigiu que o marginal saísse com vida do cerco. Ele interferiu na operação porque sabe a polícia que tem. É ele quem paga a polícia do Estado", diz Pimentel no filme.Impotência - O ex-secretário de Segurança Luiz Eduardo Soares é mais abrangente em suas considerações sobre a tragédia. Não culpa um ou outro pelo acontecido, mas a sociedade como um todo, que se mostra impotente diante da situação das crianças marginalizadas. "Nós aprendemos a conviver com os Sandros da vida. Eles são como figuras invisíveis para nós", diz.O filme de Padilha oferece pelo menos uma revelação: o fato que empurrou o pequeno Sandro para a marginalidade. A versão mais conhecida é a de que o menino caiu na rua depois que assistiu à execução da própria mãe pelas mãos do tráfico, na época em que morava na favela do Rato Molhado. Padilha contratou até um detetive particular para levantar a história verdadeira, já que muitas se acumulavam sobre a lenda do garoto que, como o fatídico ônibus que ligava a zona nobre carioca ao ponto de convergência das zonas carentes do Rio, a Central do Brasil, virou símbolo da cidade partida pelas diferenças sociais. Não por acaso o filme é aberto por imagens aéreas que refazem o trajeto do 174.

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