Documentário retrata mestres da física

Aos 22 anos, um jovem pesquisador ganhava manchetes de todo o mundo e o respeito da comunidade internacional ao descobrir o méson pi - subpartícula do núcleo do átomo, elemento fundamental para pesquisas nucleares. O cientista chamava-se César Lattes, o ano era o de 1947, e seu País, o Brasil. O percurso deste físico notável e em atividade aos 78 anos divide os 53 minutos do documentário Cientistas Brasileiros com um colega de mesmo calibre - José Leite Lopes, também ativo aos 83 anos. Se o leitor/espectador não tiver a mais remota idéia do que seja o méson pi ou mesmo elementares noções de física, não se intimide. José Mariani, realizador do filme selecionado para o festival É Tudo Verdade, admite: "Não entendo nada de física. Eu quis falar de ciência no Brasil com a leveza de um Buena Vista Social Club - mostrar que essa geração de 80 anos é na verdade uma turma de grandes jovens." Foi na procura de tema para um documentário que Mariani se deparou com o percurso de uma notável geração de físicos e matemáticos, que desde meados dos anos 30 se empenhou no desenvolvimento da ciência no País e da universidade como centro de uma elite pensante e geradora de transformações e desenvolvimento. É de forma sucinta que César Lattes define o seu campo de atuação: "A ciência não pode prever o que vai acontecer. Só pode prever a probabilidade de algo acontecer." No caso do Brasil, não é preciso ser um emérito cientista para constatar uma lamentável recorrência: de tempos em tempos, por motivos diversos - políticos, econômicos, conjunturais ou pura negligência - expoentes em várias áreas reconhecidas internacionalmente deixam o País e vão prestar serviço em lugares mais acolhedores. Apesar de feitos notáveis - "seus currículos encheriam várias páginas", lembra Mariani -, Leite Lopes foi cassado pelo AI-5 e se exilou na Europa com a mulher, a professora de matemática Laura Leite Lopes, só retornando ao País 15 anos depois. Embora não tenha sido cassado, César Lattes também passou longo período no exterior. Projeto de nação - Durante dois anos, José Mariani pesquisou o tema e colheu depoimentos de físicos, matemáticos, cientistas políticos, além de longas entrevistas com os dois personagens principais. "O filme fala de dois físicos extraordinários e também de uma geração notável que tinha um projeto de nação para o País", diz o diretor. Realizado com apoio do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e Finep, Cientistas Brasileiros tem eficiente narração de Arnaldo Antunes. Com a preocupação de realizar um filme acessível, José Mariani enriqueceu os depoimentos com preciosas imagens de arquivo, ilustrou a descoberta do méson pi com belas imagens e deixou que filosofia e arte caminhassem juntas à ciência. Lattes, por exemplo, afirma: "A história é a mais importante das ciências. Sei que sem história não há realidade objetiva." Por sua vez, Leite Lopes, além de mostrar seu lado pintor, recita, emocionado, belo poema de Rainer Maria Rilke em alemão e português, no qual diz que "a ciência é uma terra invisível que nós construímos com as mãos trêmulas". Assistente de David Neves, Eduardo Escorel, Tizuka Yamasaki e diretor de curtas e documentários, José Mariani revela que se aproximou desses "dois pilares da física brasileira" - como são definidos Lattes e Leite Lopes - ao traçar um paralelo inusitado entre ciência e cinema: "Vejo César Lattes como um Glauber Rocha, um jovem notável que fez uma obra-prima muito novo (o cineasta tinha 24 anos quando dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol) obteve o reconhecimento internacional, fez parte de uma geração que sonhou com um grande projeto para o País e sofreu vários reveses ao longo da vida." E resume: "No Brasil, as pessoas que trabalham com mais independência são obrigadas a inventar o seu próprio espaço - e isso vale tanto para a ciência como para as artes." Apesar dos percalços retratados, José Mariani acredita ter feito um filme otimista: o legado de Lattes e Leite Lopes e da geração a que pertencem persiste. "Houve, é verdade, desperdício e injustiças, mas houve também a construção de um patrimônio de conhecimento que as novas gerações estão aproveitando, como a implantação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, entre muitos outros." O diretor lamenta apenas não ter conseguido aprofundar o percurso de outros cientistas, como Mário Schoemberg, Marcelo Damy, Maurício Peixoto e Jayme Tiomno. A boa notícia é que esses trabalhos já podem estar em gestação.

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