Oswaldo Jurno/Estadão
Oswaldo Jurno/Estadão

Documentário ressalta faceta poética de Adoniran Barbosa

'Adoniran - Meu Nome é João Rubinato', que estreia na quinta, 23, conta com raras imagens de arquivo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2020 | 06h12

“Si o senhô não tá lembrado, dá licença de contá...” Tudo começou com a fascinação de Pedro Serrano por Saudosa Maloca. “As músicas do Adoniran fazem parte da nossa herança cultural, do nosso imaginário”, ele avalia. Coloca no plural, porque tem certeza que não é só ele. De tanto ouvir o samba cadenciado, ele tinha a impressão de conhecer o criador, Adoniran Barbosa, e os personagens, Mato Grosso e o Joca. “Foi aqui seu moço/que nós construímos nossa maloca/Mas um dia veio os homis com as ferramenta, que o dono mandou derrubar.”

Pedro Serrano nunca ligou para o português errado, foi sempre atraído pela visualidade da música. Conseguia ver tudo, e não apenas a saudosa maloca, ali onde agora está aquele edifício alto. Também o trem das onze. “Moro em Jaçanã/Se eu perder esse trem/Que sai agora as 11 horas/Só amanhã de manhã.” Serrano fez um curta, Dá Licença de Contar, que não é outra coisa senão a letra de Saudosa Maloca transformada em roteiro. Paulo Miklos faz Adoniran, Gero Camilo e Gustavo Machado são os amigos, Mato Grosso e o Joca. O sucesso foi imenso, o curta colecionou prêmios e veio o convite para o documentário que estreia nesta quinta, 23: Adoniran - Meu Nome é João Rubinato. 

Pois esse é o xis da questão. Adoniran é uma persona que foi criada por João Rubinato, descendente de italianos, quando se iniciou na carreira artística. Queria cantar sambas, mas quem ia querer ouvi-los cantados por um italianinho? Forjou uma identidade que se tornou meio cômica. O cara que falava tudo errado. Mesmo que fosse com afeto - às vezes, não -, as pessoas riam dele. Na fase de garimpagem do material, fuçando no arquivo da TV Cultura, Serrano e seus pesquisadores descobriram a entrevista de Elis Regina. No auge, a gaúcha sem papas na língua diz que Adoniran não é para rir. É um caso muito sério na música popular brasileira. E é esse o grande mérito do filme.


“Pesquisamos em arquivos, fizemos entrevistas. Coletamos em torno de 200 horas de material. Nossa primeira versão, quando chegamos a um filme, durava quatro horas. Pensamos em exibir em duas partes de duas horas cada, mas quem ia ver? Paramos, porque a gente tem de ter desapego. O importante era o personagem? Tinha muita anedota, todo mundo tem uma história curiosa, ou divertida, sobre Adoniran. Enxugamos e chegamos a 2h30. 'Dane-se, vai focar assim, veja quem quer.' Paramos de novo, mais desapego. O importante não era mais minhas visão sobre o Adoniran, que já estava no curta. Era ele. Quem era esse cara? Cortamos mais e chegamos aos 93 minutos do documentário, que é um tempo justo”, conta Serrano.

Justo com o espectador, com o cinema, com o personagem. Porque basta esse pouco mais de uma hora e meia para que Serrano e seus colaboradores contem, por meio de Adoniran, uma história de São Paulo. “Sempre foi isso, a cidade e seus personagens, incluindo ele próprio. Adoniran criou uma poética muito forte, e triste, sobre a verticalização da cidade, a especulação imobiliária que atravessa suas músicas e a consequência disso, o povo jogado na ruas, os pobres esquecidos, tratados como lixo. Isso não mudou”, avalia o diretor.

E o filme chegou ao seu formato. Acompanha a trajetória de João Rubinato/Adoniran. Recupera histórias - o anel de noivado com Matilde, que ele fez com a corda do violão. O sucesso no rádio, com suas histórias de malocas que espelhavam o crescimento da cidade. Os discos, o cinema. O reconhecimento no Rio, que sempre via São Paulo como o túmulo do samba. Uma vida difícil. “Adoniran teve altos e baixos. Foi sempre meio deslocado. Aquele sofá na rádio em que ele ia dormir mexeu muito comigo. Expunha sua vulnerabilidade.” A partir das reflexões de Pelão, o produtor musical J. C. Botezelli, e do bloco formado pelos depoimentos de Elis, Elifas Andreato e do texto que Antônio Cândido escreveu para colocar no disco que foi o grande resgate do artista, o filme toca/expõe a essência de Adoniran. O palhaço triste.

“Você não imagina a excitação que sentimos, que eu senti, quando o sentido do filme se impôs e tomou esse viés. Mostrei o filme para estudiosos da obra do Adoniran que me disseram que sempre quiseram mostrar esse lado mais triste, autoral, introspectivo da obra dele, mas sentiam que havia uma resistência. As pessoas preferiam o Adoniran folclórico, e era um reducionismo do grande arista que ele foi.” Serrano tem um projeto inscrito nas leis de patrocínio paras expandir o curta, transformando-o em longa. Está difícil captar, e se o filme sair ele pretende fazê-lo no capricho, mas sente que o curta, o documentário e a exposição já mataram a charada e lhe permitiram encontrar o homem, por trás da lenda.

A exposição. “Ela está aberta desde o dia 6, no corredor literário, a passagem subterrânea que liga os dois lados da Consolação, na altura do Belas Artes (uma das salas em que o filme vai estrear em São Paulo onde se realizou o debate do Estadão, na semana passada). É muito interessante. Conseguimos reunir roteiros de cinema e de rádio, objetos pessoais como o chapéu e o sapato que ele mais usava no fim da vida, e também a famosa aliança feita com a corda do violão e os trem de brinquedo e as bicicletas que ele fazia, como hobby, para dar de presente. Tudo isso torna muito presente o homem que ele foi, João Rubinato.”

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