Janice Jones
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Documentário resgata Maria Callas e sua vida sob o signo da tragédia

'Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras', que estreia na quinta, 6, usa entrevistas e cartas para recuperar a trajetória da soprano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2018 | 06h00

Marias Callas disse certa vez que o canto lhe permitira expressar-se, e dizer tudo o que ela poderia ter a dizer. Basta vê-la cantar no documentário de Tom Volf, Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras. Casta Diva, a ária da Norma, de Bellini, ou O Amor É Um Pássaro Rebelde, da Carmem, de Bizet. Essa mulher estabeleceu paradigmas muito altos na arte de cantar. Sua extensão vocal lhe permitiu ser a soprano absoluta. Mas Callas não era só a cantora. Era a persona, a atriz. Possuía um temperamento dramático que lhe permitia interpretar os papéis com toda a intensidade sonhada pelos compositores. E, mesmo sem cantar, os gritos lancinantes da sua Medeia, após matar os filhos, ecoam para sempre nos ouvidos dos cinéfilos que assistiram ao filme de Pier Paolo Pasolini.

Nas próprias palavras – é o diferencial do documentário de Tom Volf. Numa entrevista concedida a David Frost, em 1970, ela encarou seu dilaceramento. Metade mulher, Maria, metade mito, Callas. O filme dá conta dessa dualidade, permitindo que Maria revele Callas. Volf fez uma extensa pesquisa. Compilou entrevistas, mas também se utiliza das cartas que ela escreveu. Eram outros tempos. Hoje, se viva fosse, mesmo nonagenária, a Callas talvez estivesse nas redes sociais. Não teríamos a Maria epistolar, a quem Fanny Ardant empresta (em off) a voz – ela que fez seu papel em Callas Forever, de Franco Zeffirelli.

Por que Maria Callas ainda nos assombra? Sem dúvida que foi uma grande, uma imensa artista, mas seria ela tão fascinante sem os tormentos da mulher? Antes, as sopranos eram aquelas mulheres gordas que soltavam a voz. Se não inaugurou, Callas consolidou um outro modelo de conformação visual. E foi popular, incrivelmente popular. A ópera italiana, Verdi, não era uma exclusividade das elites, mas, com Callas e (Renata) Tebaldi, houve uma rivalidade digna de Marlene e Emilinha, nos tempos áureos do rádio, no Brasil.

Callas, a voz, uniu-se a Aristóteles Onassis, o poder, o dinheiro. Vivia num plano de deuses, assediada pela mídia, do qual tombou quando ele a rejeitou para se casar com Jacqueline Kennedy.

O filme dá conta da sua infelicidade, desde cedo. “Crianças deveriam ter uma infância feliz, mas a minha não foi”, disse a Frost. Perdeu um filho recém-nascido (de Onassis) e nunca deixou de visitar seu túmulo no cemitério. Perdeu a voz, recuperou-a em parte. Vivia solitária no seu apartamento em Paris, em companhia da fiel Bruna, sua doméstica/confidente/governanta, e do motorista, Ferruccio. Nas próprias palavras, essa mulher conheceu o inferno e o paraíso. Queria um lar, uma família, e teve uma prodigiosa carreira que nunca lhe bastou. Foi sua tragédia.

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