Documentário relembra trajétoria de Mário Peixoto

O filme Limite, feito por Mário Peixoto em 1931, é considerado por muitos críticos como um dos maiores clássicos da nossa cinematografia. No entanto, é pouquíssimo conhecido, mesmo entre cinéfilos, e seu diretor, mesmo sendo considerado um gênio, nunca mais conseguiu fazer outro filme. Essas injustiças históricas são explicadas no documentário Onde a Terra Acaba, uma afetuosa biografia de Peixoto dirigida pelo cineasta baiano Sérgio Machado, que está na programação do festival É Tudo Verdade, que começa no dia 29 no Rio, e em São Paulo no dia 2.O documentário era um antigo projeto de Walter Salles, que pretendia dividir a direção com Machado. "Eu e Walter conversávamos muito sobre o documentário e as formas de usar o riquíssimo material que tínhamos em mãos." Com o enorme sucesso de Central do Brasil, as premiações e a indicação para o Oscar, Salles ficou sem tempo e Machado assumiu integralmente a direção. "Procurei mostrar as condições em que Limite foi feito, como era a vida de Peixoto e os fatores que contribuíram para que ele nunca conseguisse fazer um segundo filme", explica o diretor. Ele encarou o documentário como um desafio. "É uma grande responsabilidade fazer um filme tão bom quanto o Mário Peixoto merece."Fã confesso de Limite, Machado fala com carinho do filme e acha que ele merece uma revisão. "Por muitos anos, o filme não foi bem aceito pela maioria das pessoas pelo fato de estar muitos anos adiante do seu tempo." Para ele, o público de hoje está mais preparado para entender essa obra-prima. Segundo o diretor, quando estrangeiros assistem a Limite, afirmam ser difícil acreditar que o Brasil era capaz de fazer uma produção assim. "O filme de Peixoto apontava os caminhos que a estética e a linguagem do cinema mudo de então deveriam seguir, não fosse o aparecimento do cinema falado", explica Machado. A invenção do cinema sonoro fez com que a estética passasse a ser direcionada para girar em torno do som.Onde a Terra Acaba funciona também como uma introdução ao filme de Peixoto. Machado gosta da idéia e afirma que, se o seu filme servir para que Limite se torne mais conhecido, ele já se dará por satisfeito. "É um filme impressionante, com uma linguagem visual que se aproxima da poesia." Para ele, trata-se de um filme-síntese. "Ele reúne o que havia de melhor em toda a experimentação de linguagem que se fazia na época e o mais impressionante é que foi feito por um diretor estreante, que tinha apenas 21 anos."Um dos achados do belo documentário de Machado é reunir, alternadamente, cenas de um depoimento de Peixoto com trechos de memórias escritas pelo próprio diretor de Limite, narradas habilmente por Matheus Nachtergaele. Por vezes, o espectador tem a impressão de que é o próprio Peixoto quem está falando. As cenas com Peixoto são uma raridade e estão em ótimo estado. Elas foram feitas pelo cineasta Rui Solder, que também planejava fazer um filme sobre o diretor e dá um interessante depoimento no documentário.

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