Documentário relembra diva da Vera Cruz

Eliane Lage, diva da Vera Cruz e dona de beleza similar à da sueca Ingrid Bergman, tornou-se uma espécie de Greta Garbo ao isolar-se do mundo artístico. Agora ela está de volta. Na sexta-feira visitará São Paulo para prestigiar o lançamento do documentário Eliane, de Ana Carolina Maciel e Caco Souza. O filme, por enquanto um média-metragem, matriz de longa documental que está em preparação, participa da mostra competitiva do Festival É Tudo Verdade. Sua única sessão, que será prestigiada pela atriz, será no Cineclube DirectTV. A estrela de Caiçara, Ângela, Sinhá Moça e Ravina confessa que é uma mulher de bem vividos 73 anos, desprovida de mágoas e rancores. Adora a vida, os filhos, os netos, os anos que viveu no Guarujá e depois em Pirenópolis (histórica cidade goiana). Hoje, vive o tempo presente, desfrutado sem estresse ou correrias num casarão no sul de Minas. Viúva do cineasta Tom Payne (1914-1996), com três filhos e seis netos, Eliane conserva o corpo esguio e convive, sem traumas, com as rugas. "Nunca fui atriz", diz no filme e reafirma em entrevista por telefone. "Fui eu mesma nos filmes dos quais participei." Eliane Lage dirige à memória de Tom Payne e à amiga Ruth de Souza, parceira em Sinhá Moça, suas palavras mais carinhosas. Revê seus filmes com olhos críticos e delicia-se com filmes franceses, italianos e ingleses na TV a cabo. O nome Lage é sinônimo de arte no Brasil. O tio, Henrique Lage, deu à mulher, a cantora lírica Gabriela Bezanzone, o magnífico casarão cercado de jardins, mais tarde transformado em cenário por Glauber Rocha (Terra em Transe) e Joaquim Pedro (Macunaíma). Hoje, conhecido como Parque Lage, transformou-se em patrimônio do Rio. Eliane Margareth Elizabeth Lage nasceu filha de mãe inglesa e pai brasileiro. Era neta de franceses. Os pais se separaram quando ela era criança. Ficou com Jorge Lage, o pai, dono de estaleiro situado na Ilha do Viana. "Minha infância se desenvolveu sob os cuidados de governanta inglesa e mordomo espanhol." O inglês e o português foram suas línguas maternas. A beleza, um atributo que saltava aos olhos de todos. Um dia, num jantar organizado para recepcionar Alberto Cavalcanti (1897-1982) ela se deparou com um rapaz com jeito de poeta mal nutrido. Olhou para ele e encantou-se. Ao conversarem, soube que ele vinha da Inglaterra, tinha nome britânico (Tom Payne), mas era argentino de nascimento. Trabalhariam juntos em filmes da Vera Cruz, se casariam, teriam filhos. A carreira de atriz da bela Eliane Lage durou apenas oito anos (de Caiçara, 1950, a Ravina, 1958) e ela estava afastada do cinema por quatro longas décadas. Tinha 22 anos quando se tornou atriz e se apaixonou por Tom Payne, 14 anos mais velho. Agência Estado - Você diz, no documentário, que interpretou a si mesma nos quatro filmes que protagonizou. Que não se sente atriz. Não há rigor excessivo nessa avaliação? Eliane Lage - Não. Eu entrava em cada filme sabendo até onde iria. Sabia que não tinha capacidade para ultrapassar meus limites. Há um ponto em que o ator tem de esquecer quem ele é e mergulhar no personagem. Nunca cheguei a esse estágio. Se a convidassem para representar papel semelhante ao que Fernanda Montenegro em "Central do Brasil" (a escrevinhadora de cartas, Dora), você não conseguiria? Não. Tom (Payne) dizia que eu tinha presença. Uma coisa é ter presença ou fotogenia. Mas tenho consciência que me faltava aquele fogo interior, tão necessário ao ator verdadeiro. Nunca cheguei a esse ponto em nenhum dos quatro filmes em que atuei. Cinco, pois há "Terra É Sempre Terra". Neste, fiz pouco mais que uma figuração. Tom era o diretor. Fui visitá-lo no set e a atriz que faria o papel havia caído do cavalo e se machucado. Se eu não aceitasse substituí-la, haveria atraso nas filmagens e gastos extras. No documentário "Eliane", você demonstra imenso amor por Tom Payne e por "Sinhá Moça". Você acha que é o melhor dos seus trabalhos? Gosto do filme não pelo meu desempenho, mas por um conjunto de fatores. A direção do Tom é ótima, a Ruth de Souza está maravilhosa e há o tema, a pesquisa histórica, a questão da escravidão. O filme foi bem recebido no Festival de Veneza e ganhou o prêmio especial do júri. Gosto muito de tema histórico. Sinhá Moça começa água-com-açúcar, mas depois cresce e se situa bem na questão da libertação dos escravos.

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