Documentário que ganhou o Oscar, no Brasil

Era para ser uma entrevista com a produtora e o diretor de Nos Braços de Estranhos. Por uma série de confusões e mal-entendidos, não foi possível falar com Deborah Oppenheimer no horário combinado. Foi melhor assim. A conversa com Mark Jonathan Harris não apenas revelou tudo sobre o processo criativo do filme vencedor do Oscar de documentário, em março, como levou a algumas descobertas surpreendentes. De origem judaica (como Deborah), Harris acha importante que se fale sobre o Holocausto, cujo horror não pode ser esquecido, sob pena de que a história possa se repetir. A surpresa é quando ele admite que existe uma indústria do holocausto e que, em Hollywood, por exemplo, é mais fácil obter financiamento para projetos ligados ao assunto. O de Nos Braços de Estranhos, por ligar crianças e holocausto, não teve maiores dificuldades para arranjar investidores, nem um estúdio - a Warner - que garantiu ao filme exposição suficiente para que ele ganhasse o prêmio da academia. Problemas, Harris está tendo com o próximo filme que quer fazer. Outro documentário e também sobre crianças, mas desta vez tratando da exploração do trabalho infantil na economia globalizada. "É um assunto ao qual tenho me dedicado bastante, até mesmo me documentando em profundidade para fazer um trabalho que não seja só emotivo." Pois bem: toda essa dedicação não está tendo acolhida no mundo do capital. Harris não encontra interessados no projeto. Quer dizer: encontra pessoas que o encorajam, mas nenhuma empresa ou estúdio que queira ligar seu nome a tema tão delicado e espinhoso. Mas ele não desanima e avisa: "Se conseguir fazer meu filme, vamos nos encontrar, com certeza, porque terei de filmar no seu país." O Brasil é recordista mundial em violações de direitos infantis. "Quando o assunto é exploração do trabalho infantil, então, o Brasil é fundamental; não é muito lisonjeiro para vocês, mas é a verdade", diz o diretor de Nos Braços de Estranhos, lançado pela Warner diretamente no mercado de vídeo, no Brasil. Harris fala pelo telefone, de Los Angeles. Está em casa. Pede todas as informações sobre telefones e e-mails - do jornal, do repórter -, porque lhe interessa manter esse vínculo com o País. O Brasil ocupa atualmente o centro de suas atenções, como o kindertransport ocupou, há pouco. O transporte de crianças surgiu durante a 2.ª Grande Guerra, como uma alternativa para salvar crianças judias ameaçadas pelo nazismo. Morreram 6 milhões de judeus no Holocausto. Deles, 1,5 milhão eram crianças. Cerca de 10 mil meninos e meninas conseguiram beneficiar-se do kindertransport, quando a Inglaterra, em nome do humanitarismo, abriu suas fronteiras para acolher essas pequenas vítimas. Dez mil apenas. Menos de 1% das vítimas infantis da shoah. Parece insignificante e, em frios termos de estatística, talvez seja. "Mas são 10 mil vidas", observa Harris. O repórter cita um filme do qual não gosta muito, faz a ressalva. Em O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, desperdiçam-se muitas vidas para salvar só uma. Spielberg justifica o esforço citando a Torá. Harris diz que também não gosta de Soldado Ryan, mas foi educado no humanismo expresso no livro sagrado do judaísmo. Entende perfeitamente a citação e vale-se dela para destacar a importância dessas 10 mil vidas que foram salvas durante o kindertransport. Ele conta que o filme nasceu de uma proposição feita por Deborah Oppenheimer. A mãe dela foi uma das crianças levadas para a Inglaterra. De tanto ouvir a história, Deborah sonhava com um filme sobre o assunto. Cooptou Mark Jonathan Harris que, em 1997, já havia recebido o Oscar de documentário - por Long Way Home, também tratando do Holocausto. E, antes disso, havia ganho seu primeiro Oscar com o curta The Redwoods. Harris conta que trabalhou em regime intensivo, na preparação do documentário, durante oito semanas. Depois, mais seis meses procurando os personagens, fazendo a pesquisa iconográfica. Ele conta que, nesse tipo de documentário, o casting é fundamental. É preciso encontrar as pessoas certas, estabelecer um clima de confiança e cumplicidade com elas, para garantir que vão render, no momento em que a câmera for ligada. "Parece fácil, mas é preciso todo um trabalho de envolvimento e preparação psicológica", diz Harris. Pois essas pessoas precisam abrir o coração para falar de coisas muito íntimas, muito dolorosas. Um dos entrevistados conta como foi duro para ele ser separado dos pais. Hoje ele sabe que os pais fizeram o supremo sacrifício para salvá-lo, mas na época o que ele sentia era rejeição. Fez um pacto com outras crianças - se aquilo ocorresse com eles, de novo, eles nunca se separariam dos filhos. Nos seus documentários vencedores do Oscar - e no próximo que quer fazer -, Harris segue sempre uma lição que aprendeu do documentarista inglês John Grierson. "O objetivo do documentário é apresentar um segmento da sociedade àqueles segmentos que desconhece." Essa é a sua concepção do cinema de não-ficção em geral, baseada na aventura da descoberta e na importância do conhecimento. De forma mais íntima e pessoal, ele diz que, em seus documentários, gosta de retratar pessoas comuns em circunstâncias especiais. Conta o que o motivou a aceitar o desafio de fazer Nos Braços de Estranhos. "Está no próprio título: essas pessoas se salvaram e hoje podem contar sua história porque receberam o apoio e o carinho de estranhos." O subtexto de Nos Braços de Estranhos é a solidariedade. Sem ela não existe cidadania, diz Harris. Pode ser um sonho de poetas, mas o humanismo resiste, mesmo em tempos de globalização.

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