Documentário 'Personal Che' investiga faces do mito

Produção de Douglas Duarte e Adriana Mariño mostra as diversas idéias que as pessoas fazem do argentino

Alysson Oliveira, da Reuters,

08 Junho 2019 | 11h54

Ernesto 'Che' Guevara é uma figura tão emblemática do século XX, que a sua imagem - aquela baseada numa foto famosa de Alberto Korda, tirada na década de 1960 - transcende a sua ideologia. Na verdade, a idéia que as pessoas fazem do guerrilheiro vem se mostrando tão maleável que seu culto se adapta a qualquer grupo, desde políticos chineses a neonazistas alemães.     Veja também: Trailer de 'Personal Che'  O documentário Personal Che, que estréia em São Paulo e Rio nesta sexta-feira, 20, investiga pelo mundo a fora as diversas representações e leituras que são feitas sobre o guerrilheiro - enfim, é a busca pelo mito de cada um. "Todo mundo pode interpretá-lo como quiser", afirma, no começo do filme, John Lee Anderson, biógrafo do guerrilheiro argentino, autor de Che Guevara: Uma Biografia. "Ele simboliza o desejo de mudar o mundo", conclui, comparando-o a Jesus Cristo e Robin Hood. Àqueles que pensam que Lee Anderson pode estar exagerando, o que segue em Personal Che mostra que não. O documentário vai além das camisetas estampadas que desfilam pelas ruas do mundo todo, pesquisando as mais diversas idéias que as pessoas fazem do argentino. Na Bolívia, na região onde foi executado por militares em 1967, ele é considerado por muitos como um santo, São Che. Pessoas oram por ele pedindo graças e acendem velas para agradecer supostos milagres. Em Cuba, um taxista veste seus filhos com a farda igual à do Che e se emociona ao ver, pela primeira vez a imagem do guerrilheiro morto numa revista. Che se mostra capaz de gerar amor e ódio nas mesmas proporções, resultando em debates calorosos em plena rua, por parte de exilados cubanos contra um salvadorenho que coleciona souvenirs relacionados a Guevara. O líder argentino também divide os intelectuais, como Jorge Castañeda, Paul Berman, David Kunzle e Christopher Hitchens. A grande qualidade do documentário, dirigido pelo brasileiro Douglas Duarte e a colombiana Adriana Mariño, é levantar um debate e não se preocupar em desvendar Che Guevara - que já foi objeto de várias obras, como Diários de Motocicleta, do brasileiro Walter Salles, e de uma longa cinebiografia, Che, dirigida por Steven Soderbergh, que rendeu a Benicio Del Toro o prêmio de melhor ator no mais recente Festival de Cannes. O que o filme nunca se propõe é desmistificar a figura de Che. Pelo contrário, os diretores trabalham questionando as imagens conhecidas e introduzindo algumas novas - como um musical libanês que conta a vida do guerrilheiro, ou um político de Hong Kong que só usa camiseta com a foto de Korda, entre outros, ampliando o leque da discussão.

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