Documentário olha Kubrick bem de perto

?Para mim, sempre foi óbvio que ele era o melhor. E, mesmo dizendo isso, estaria subestimando sua obra.? O elogio ? que poderia soar apenas como adulação nas palavras de outro ator ? não vem de um artista qualquer, mas do ícone do cinema norte-americano Jack Nicholson. A declaração é um bom exemplo do que pode ser visto no documentário Stanley Kubrick: A Life In Pictures (Stanley Kubrick: Uma Vida Quadro a Quadro), que o canal pago HBO exibe em primeira mão no Brasil a partir de amanhã.O filme é uma biografia cinematográfica de um dos maiores diretores da história do cinema mundial. Foi lançado no último Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, e agora inicia a carreira no circuito independente dos festivais americanos. O grande diferencial deste documentário é que a direção ficou a cargo de Jan Harlan, cunhado e colaborador do diretor americano desde as filmagens de Laranja Mecânica, em 1971.Harlan, irmão da mulher de Kubrick, Christiane, acabou se tornando um assessor informal do diretor, especialmente na área musical. Com sua ajuda, Kubrick escolheu os trechos de Beethoven e Mahler para ilustrar, respectivamente, as mentes doentias de Alex, em Laranja Mecânica, e Jack, em O Iluminado.Scorsese, Spielberg, Allen - Stanley Kubrick: Uma Vida Quadro a Quadro é narrado por Tom Cruise. O ator e sua mulher à época, Nicole Kidman, trabalharam com o diretor em seu último trabalho, De Olhos Bem Fechados, de 1999. Kubrick morreu em sua casa em Hartfordshire, subúrbio de Londres, no dia 7 de março, dez dias após concluir a edição do filme. A HBO também exibe o filme este mês, concluindo a programação especial dedicada ao diretor em julho. Kubrick completaria 73 anos no dia 26.O texto de Cruise poderia soar como pura bajulação de um pupilo, se não estivesse acompanhado de depoimentos emocionados de Martin Scorsese, Woody Allen, Arthur C. Clarke, Alan Parker, Sidney Pollack e Steven Spielberg, entre outros. ?Kubrick e Orson Welles pertencem ao Olimpo dos diretores mundiais?, resume Woody Allen.Além do relato dos famosos, o filme também traz histórias dos (poucos) amigos que conviveram com o diretor e dezenas de vídeos caseiros, onde é possível ver uma faceta bem diferente daquela apresentada até hoje pela mídia: o homem recluso, estranho, obcecado pela natureza maligna da humanidade, dá lugar a um simpático pai de família, preocupado com filhos, netos, cães, gatos.Intimidade - Como todo registro deste estilo, os bastidores de sua vida pessoal, tão desconhecida do grande público, também vêm à tona. Em uma das passagens mais divertidas, sua mulher, Christiane, relembra um de seus únicos episódios agressivos: o dia em que Kubrick recebeu a bala fãs invasivos e, arrependido, tentou compensar o incidente oferecendo altas somas em dinheiro.Cenas da infância de Kubrick também estão na tela: o diretor da escola, o amigo das ruas do Bronx, Nova York, cidade onde Kubrick nasceu e viveu até 1968. O início de sua carreira é contado sem glamour, do adolescente que passava as tardes jogando xadrez ? uma das metáforas de vida mais recorrentes em sua obra ? ao cineasta precoce, que enfrentava longas filas do seguro-desemprego para viver com US$ 30 por mês.Kubrick só atingiu a independêcia total em 1968, com 2001: Uma Odisséia no Espaço. Ao se mudar dos Estados Unidos para a Europa, Kubrick passou a viver em uma realidade paralela, filmando nos arredores de sua propriedade e transformando o local em um mundo à parte: a música clássica, os longos telefonemas para os amigos, a coleção de câmeras antigas, as fitas de vídeo com regravações de Os Simpsons, outra paixão do diretor. Perfeccionista - O documentário também relata a maneira como o diretor trabalhava, praticamente inédita para o público. A obsessão pelo perfeccionismo, tão comentada nos bastidores, pode ser vista nos depoimentos de Shelley Duvall. Kubrick chegava a intimidá-la para arrancar da atriz uma interpretação mais desesperada em O Iluminado, de 1980. Em outros casos, rodava uma cena 36 vezes, até atingir o resultado desejado.A credibilidade de Stanley Kubrick: Uma Vida Quadro a Quadro reside no conceito de que o projeto nasceu dentro do próprio clã dos Kubrick. E Jan Harlan foi bem-sucedido. Está tudo aqui: a vida, a obra, o gênio de Stanley Kubrick.Martin Scorsese, em uma das declarações mais emocionadas do filme, resume o tamanho da pequena-gigantesca obra do diretor, composta por 13 longas-metragens e 3 curtas. ?Seria melhor se ele tivesse feito mais filmes, mas não era sua forma de trabalhar. Cada filme de Kubrick equivale a dez de outro diretor. Cada um deles é um filme novo, a cada vez que o assistimos.?Stanley Kubrick: Uma Vida Quadro a Quadro. Canal HBO (pago). A partir de amanhã, em três episódios, sempre aos domingos, às 22 h. De Olhos Bem Fechados. Canal HBO (pago). Sexta-feira, 27 de julho, às 20h30.

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