Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Documentário 'Notturno' aborda cotidiano de pessoas devastadas por guerras

Filme do ítalo-americano Gianfranco Rosi foi aplaudido em Veneza e indicado para o Oscar

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

30 de março de 2021 | 05h00

Filmado ao longo de três anos no Oriente Médio, nas fronteiras entre Iraque, Curdistão, Síria e Líbano, buscando a rotina daquele canteiro do mundo por trás de suas contínuas guerras civis e suas ditaduras ferozes, Notturno saiu ovacionado do Festival de Veneza de 2020, levando o prêmio da Unicef pelo humanismo em sua colagem de diferentes formas de se lidar com a violência, a fé e os desígnios do Estado Islâmico. O documentário também entrou nos indicados para o Oscar deste ano de melhor filme estrangeiro. 

Seu sucesso só fez ampliar o prestígio de um dos raros diretores em atividade no cinema a ter no currículo um Leão de Ouro (dado a ele por jurados chefiados por Bernardo Bertolucci, em 2013, por Sacro GRA) e um Urso de Ouro (conferido por um júri presidido por Meryl Streep a Fogo no Mar, em 2016). Essas duas láureas fizeram do ítalo-americano Gianfranco Rosi um dos documentaristas de maior prestígio da atualidade. 

Nascido na Eritreia há 57 anos, o documentarista optou por lançar online seu trabalho mais recente, Notturno, já disponível na plataforma Mubi, que lhe dedicou uma retrospectiva de seus longas, chamada O Esplendor da Verdade. Nela, estão pérolas como Boatman – aclamado em Sundance, em 1994, por seu retrato de uma viagem pelo Rio Ganges – e Below Sea Level (2008), ganhador do Prêmio Horizontes de Veneza, ao registrar a realidade de pessoas que viraram as costas para o sonho americano, vivendo em um deserto. Nesta entrevista, Rosi compartilha com o Estadão sua visão política da arte de documentar. 

Um dos pontos mais elogiados de 'Notturno', desde a projeção em Veneza, em setembro, é a engenharia de som que o senhor cria ao retratar a realidade do Oriente Médio. Qual é a dimensão estética do som?

Sou eu mesmo que opero a câmera e capto o som dos meus filmes. Ao concentrar tudo, eu posso depurar uma narrativa que é guiada pela minha vivência dos temas. Trabalhei cerca de três meses no desenho sonoro desse documentário até encontrar a medida certa em que captasse todo aquele mundo.

Quando o senhor fala em “vivência” o senhor se refere a um processo de “observação”?

Não gosto desse termo “observação”, porque eu acredito no engajamento, no contato com o que filmo. Gasto meses a fio num ambiente que desejo retratar, convivendo com as situações ou com as pessoas aproveitando cada momento, porque, a cada instante, pode aparecer algo importante. Momentos são metonímias de uma vida. Filmar é estar atento às ausências, é antecipar o que está por vir. Na montagem, não há expectativa, Ali, eu opero a partir do que o som me trouxe, numa costura de momentos, tendo o tempo como uma baliza. O tempo da narrativa e o tempo das minhas descobertas ao longo do processo. 

A cena mais emblemática de 'Notturno' mostra um jovem numa motocicleta, numa paisagem desértica, que sinaliza uma sensação de solidão. Aliás, revendo sua obra agora, em especial 'Sacro GRA', a solidão parece ser um motor na construção de personagens. Como é essa relação com os afetos de seus personagens?

Não se trata de apostar em sentimentos, mas, sim, de uma atitude ética de notar que a intimidade é reveladora e respeitosa. Por isso, na sua pergunta, eu substituiria a palavra “solidão” por “silêncio”. Deixar um personagem em seu silêncio é entender o tempo dele. E saber construir um ponto de vista que respeite a liberdade de seus personagens é o gesto mais ético que um documentarista pode ter. Ainda nessa questão do silêncio, há o fato de que meus filmes não operam na lógica da explicação nem da reclamação. Não trabalho com perguntas e respostas. Notturno é um filme que se passa num contexto geopolítico de guerras. Nessa situação, o vazio é mais do que legítimo, assim como a suspensão das certezas que cercam um confronto. Estou registrando o cotidiano de pessoas que estão fisicamente e psicologicamente devastadas. Não posso esperar respostas, nem me limitar a reclamações.

O que o rótulo “cinema político” simboliza para um documentário como 'Notturno' e para os demais filmes que o senhor faz?

Todo cinema é político quando olha para uma realidade que não lhe pertence, tendo ou não uma ideologia. Quando eu estudo uma realidade de violência dando voz a mães, a crianças, a vítimas, estou sendo político.

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