Documentário mostra uma Janis Joplin alegre e enigmática

Filme de Amy Berg, da série ‘American Masters’, é elegante com a turbulenta trajetória da cantora norte-americana

Robert Lloyd, LOS ANGELES TIMES

15 de maio de 2016 | 19h18

A documentarista Amy Berg (A Oeste de Memphis, Prophets of Prey) fez um filme elegante, carinhoso e, sob vários aspectos, notavelmente alegre sobre Janis Joplin – cantora de blues, ícone do rock e um enigma feminista. Janis: Little Girl Blue, uma produção de 2015, chegou à televisão norte-americana na última semana pela série da PBS American Masters. Com justiça. 

Chamar de alegre o filme de Amy Berg não significa que ele mostre como rósea uma vida às vezes conturbada. Mas, se a Janis do filme pode ser triste, carente, bêbada, drogada, ela é também ponderada, ambiciosa, dura, vivaz, contente, vulnerável no bom e no mau sentido, esperançosa e talentosa, amaldiçoada e abençoada para seguir o próprio caminho. “Não conseguia se imaginar igual a todo mundo”, lembra uma amiga de infância. 

Pouco antes da dose de heroína que a matou, em 1970, Janis estava numa boa fase, criativa e profissional, terminando seu quarto álbum, Pearl. Mas a artista sempre andou muito perto da tragédia. 

Pode-se dizer que Janis foi (para os mais jovens e os que não a conhecem) a Amy Winehouse de sua geração: uma cantora branca de música negra, estilo exuberante e morta aos 27 anos, que deixou uma obra reconhecível pela excelência e por um potencial incalculável. 

Uma vez, numa entrevista, Janis disse que Billie Holiday e Aretha Franklin eram “tão sutis que podem saciar a fome de alguém com duas notas, resumir o universo em duas palavras”. E completou: “Ainda não consegui isso; tudo que tenho agora é minha força. Mas, quem sabe, se continuar cantando, talvez chegue lá”. 

Havia outras mulheres no rock quando Janis, saindo de Port Arthur, Texas, juntou-se à Big Brother & the Holding Company em São Francisco, em 1966. Mas elas ainda não tinham o status de uma Carrie Brownstein ou mesmo de uma Belinda Carlisle. Era mais provável a mulher ser uma cantora como Janis ou Grace Slick, do Jefferson Airplane – rival de Janis –, segurando um microfone e apoiada por homens (havia principalmente homens no palco do Monterey Pop, onde Janis agarrou a oportunidade pelo pescoço e submeteu-a a sua vontade). Fora do palco, na comunidade hippie, os homens também usufruíam de um confortável espaço. 

Embora situando Janis em seu tempo, Amy Berg não idealiza, demoniza ou mesmo tenta explicar essa época. Para um filme sobre os anos 1960, o documentário surpreende por não ser nostálgico ou tribal. Coube principalmente à própria Janis – em cartas lidas com a dose certa de apelo, perspicácia e fanfarronice por Chan Marshall, a artista também conhecida como Cat Power – descrever esse cenário e o avanço da cantora através dele. 

“Andei observando”, diz ela em carta à família, “e notei que, depois de se chegar a um certo nível de talento, o fator decisivo passa a ser a ambição, ou, como vejo, quanto você realmente precisa ser amado, orgulhar-se de si mesmo.”

Sua busca por sucesso e amor – sinta-se livre para ver isso como resultado de um antigo ostracismo social ou de uma pobre imagem corporal – levou-a a entrar e sair de bandas e de relacionamentos com boas e más companhias. A grande descoberta de Amy Berg, se essa for a palavra, foi David Niehaus, que encontrou Janis Joplin numa praia do Rio de Janeiro. Ela estava sozinha, algo hoje impossível com a onipresença da mídia. Niehaus ajudou-a a sair por um tempo da heroína e se tornou seu companheiro de viagem e namorado. 

Vemos Janis no estúdio e, claro, no palco, vivendo o momento, sobrancelhas cerradas, olhos azuis. Grisalhos parceiros de bandas, amigos, amantes, surgem com suas reminiscências, tentando esboçar como seria um futuro que a própria Janis apenas imaginou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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