Documentário mostra crise do ensino no País

Co-diretor (com Walter Carvalho) de um documentário em que ninguém acreditava, mas que se transformou num grande sucesso do cinema brasileiros, com mais de 140 mil espectadores - Janela da Alma -, João Jardim pesquisava para uma ficção que pretendia realizar, sobre a gravidez na adolescência. Impressionado com os depoimentos dos jovens, ele terminou mudando de projeto e fez Pro Dia Nascer Feliz, outro documentário, que ainda não estava completamente finalizado quando foi exibido na Mostra Internacional de 2005, ganhando três prêmios - o de melhor documentário para o júri oficial; o do público; e o prêmio da Mostra da Juventude. A primeira exibição foi em digital e, desde então, Pro Dia Nascer Feliz passou em mais três festivais - Recife, Gramado e Rio, no ano passado. O diretor fez algumas mudanças na montagem, passou Pro Dia Nascer Feliz para película e é assim que o filme, finalmente, estréia na sexta-feira. "Estou nervoso", admite João Jardim, numa entrevista por telefone. "Acho que o momento do documentário no País não é o mesmo de quando lancei Janela da Alma. O público do documentário, que já era reduzido baixou ainda mais no ano passado, acompanhando uma tendência do mercado como um todo." Seu medo é que Pro Dia Nascer Feliz seja vítima do preconceito, e encarado apenas, ou exclusivamente como um filme sobre a escola. É mais que isso. "Os depoimentos dos jovens são importantes e incluem a escola, claro, o que me permite discutir a situação do sistema de ensino no País." Na abertura de Pro Dia Nascer Feliz, um cinejornal do começo dos anos 60 cita os números - apenas 50% dos jovens em idade escolar iam à escola no Brasil. Hoje, 98% freqüentam a escola, particular ou pública, mas a qualidade do sistema pode ser aferida por um número estarrecedor - metade deles não sabe ler nem escrever. Num determinado momento, ocorre um crime numa escola. João poderia ter terminado seu filme ali e seria sobre a falência do sistema de ensino no Brasil, mas ele continua e termina Pro Dia Nascer Feliz com um depoimento emocionante (que você deve ver para descobrir). "Esse depoimento não está lá só para levantar o astral do filme, mas porque, para mim, Pro Dia Nascer Feliz é muito mais uma discussão sobre o desperdício, sobre a falta de oportunidades que tem o jovem brasileiro. Queria mostrar justamente o potencial que tem essa juventude que não está sendo assistida em suas necessidades, mesmo que a situação, no geral, tenha progredido em relação à dos anos 60." Oportunidades - em grandes centros ou em pequenas localidades do interior, como Manari, em Pernambuco, considerada a cidade mais pobre do País, João Jardim encontrou a mesma necessidade dos jovens de se afirmarem e chamar a atenção. "Tem a que mata, o que sai na banda, a que faz poesia. O jovem quer aparecer, mostrar aquilo do que é capaz." A desigualdade é grande, mas é um ponto comum a todos os jovens que o diretor entrevistou com sua câmera (e até naqueles cujos depoimentos não ficaram na edição final de Pro Dia Nascer Feliz). Pode-se criticar muita coisa em Pro Dia Nascer Feliz, mas o filme tem momentos ótimos. João invade uma escola de alta classe média no Alto de Pinheiros. Garotos e garotas ricos, bem nutridos, inteligentes, com mais oportunidades - talvez - do que aqueles de Manari, mas com problemas, às vezes, muito próximos. Uma garota é discriminada por ser ?caxias?. Outra comenta, com evidente preocupação social, a situação dos meninos de rua e diz que são dois mundos - o deles e o dela. Sua colega arremata - e é uma grande frase - que não, é um engano pensar assim. Não são dois mundos, é o mesmo mundo e é essa tragédia da vida brasileira que João Jardim flagra, menos preocupado em fazer denúncia do que em dar voz (e rosto) aos seus jovens. Pro Dia Nascer Feliz. (Brasil/2006, 88 min) - Documentário. Dir. João Jardim. Livre. Cotação: Bom

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