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Documentário mostra como restos se transformam em arte

'Lixo Extraordinário' acompanha o trabalho de Vik Muniz com material reciclável

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2011 | 06h00

Os bastidores do documentário Lixo Extraordinário, que estreia nesta sexta-feira, 21, certamente inspirariam outro filme. A ideia central era mostrar como o artista plástico Vik Muniz transforma lixo em arte. Assim, a partir de material recolhido no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário da América Latina localizado na periferia de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Muniz compôs imagens estilizadas, como as que inspiraram a abertura da novela Passione.

"Foi um processo com muitas voltas e cada um praticamente trabalhou independente do outro", conta João Jardim, que assina a direção do documentário com a inglesa Lucy Walker e a brasileira Karen Harley. As diferentes visões contribuem para o documentário - inicialmente escultor, Vik Muniz logo se interessou pela fotografia. Não uma mera reprodução, mas um trabalho que incorpora materiais improváveis (diamantes, açúcar, cordas, calda de chocolate). O resultado conquistou prêmios e lhe trouxe fama mundial.

Foi o suficiente para despertar a atenção do inglês Angus Aynsley, rico produtor e colecionador de arte, que se dispôs a bancar um documentário sobre o processo de trabalho de Muniz. Interessado em utilizar o lixo, o artista decidiu acompanhar a rotina dos catadores de materiais recicláveis de Jardim Gramacho. "Isso foi em 2007, quando a Lucy assumiu o projeto", relembra João Jardim.

Com a demora nas filmagens, Lucy Walker deixou o projeto, assumido por Jardim. "Minha ideia era acompanhar a pesquisa do Vik em Gramacho", conta. O artista plástico decidiu sugerir a alguns catadores que posassem para as fotos, o que implicaria uma mudança em suas vidas. Surgiu, assim, um time de personagens cativantes, carregados de dignidade.

Como Tião, carismático presidente da Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho. Ele lidera também as sessões de fotos no lixão, reproduzindo a cena de A Morte de Marat, quadro pintado em 1793 por Jacques-Louis David. "A chance de uma nova vida surge como libertadora para eles", conta Jardim, que filmou as cenas no lixão. Karen Harley rodou o que faltava e Lucy Walker, que retomou o projeto, deu o toque final. Premiado em Sundance, o filme espera agora uma indicação para o Oscar.

Catadores recuperam autoestima

Lixo Extraordinário aponta para diversos caminhos, mas não perde o fio da meada, que se concentra no trabalho de Vik Muniz. Em um primeiro momento, revela-se um documentário sobre seu processo criativo. Quando Muniz resolve filmar em uma área pobre, ele relembra seu passado e o filme parece encaminhar para a biografia. Finalmente, surgem os catadores escolhidos como personagens que, por conta de sua rica história, acabam ganhando uma relevância que ombreia com o próprio trabalho do artista.

"A coisa bonita sobre o lixo é que ele é negativo, é algo que você não usa mais, é o que você não quer ver", diz Muniz. "Então, se você é um artista visual, o lixo se torna um material muito interessante para se trabalhar, porque ele é o mais não visual dos materiais. Você está trabalhando com algo que você normalmente tenta esconder."

Além do reconhecimento internacional (uma das obras foi leiloada em Londres), Vik consegue um retorno mais importante: a mudança na vida dos catadores que aceitam fazer seus próprios retratos. Como Isis, a jovem que terminou no lixão depois da desilusão por perder um filho. A foto faz com que ela recupere a autoestima e desista de voltar a colher lixo.

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